Cardeal Pedro Barreto: “A sinodalidade é escutar sobretudo o Espírito Santo”

Cardeal Pedro Barreto: “A sinodalidade é escutar sobretudo o Espírito Santo”
Compartilhar...

O cardeal Pedro Barreto reconhece que a sinodalidade transformou sua maneira de compreender e viver a Igreja. Depois de décadas de serviço sacerdotal e episcopal e de uma intensa experiência pastoral na Amazônia, manifesta que hoje contempla esse processo como uma ação do Espírito Santo que está gerando algo novo tanto dentro da Igreja como na sociedade.

Sua aproximação à sinodalidade se fortaleceu especialmente durante o processo promovido pelo Papa Francisco. O Card. Barreto, que até março de 2026 esteve à frente da Conferência Eclesial da Amazônia, considera que a experiência amazônica foi precisamente um dos frutos dessa maneira de ser Igreja.

“Isso me entusiasmou. Cheguei até a dizer que o Sínodo Amazônico e a Conferência Eclesial da Amazônia são fruto da sinodalidade na região amazônica”, recorda. Mas sua reflexão vai além dessa experiência. O que lhe pareceu especialmente significativo foi o convite a toda a Igreja para pôr-se a caminho. “Encantou-me essa proposta que pôs a Igreja a caminho, em caminho sinodal, nessa experiência de uma peregrinação do povo de Deus como Igreja católica a serviço do mundo”, explica. Para ele, essa perspectiva se conecta com a visão do Concílio Vaticano II e com uma Igreja chamada a viver em saída missionária.

Igreja que está despertando

O Card. Barreto reconhece que essa compreensão da Igreja também significou um processo pessoal. Em sua atual etapa de vida, que define como um momento de aposentadoria no exercício do episcopado, continua entendendo seu ministério como um serviço ao povo de Deus. “Eu continuo servindo à Igreja a partir deste caminhar juntos”, compartilha. E, para explicar o que significa essa descoberta, utiliza uma expressão de Santo Agostinho: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova. Tarde te amei”.

A seu ver, a experiência sinodal que a Igreja vive atualmente recolhe uma intuição que já estava presente no Concílio Vaticano II, mas que agora adquire nova força diante dos desafios contemporâneos.

O purpurado observa uma deterioração das relações humanas, as guerras, a destruição, a morte, os desastres naturais e uma crescente indiferença diante do sofrimento. No entanto, em meio a essa realidade, descobre também sinais de esperança. “Há algo que está nascendo na Igreja, que é a consciência de que o fundamento de nossa vida não está no que somos, no que sabemos ou no que fazemos, mas no que Deus está fazendo em cada um de nós”, sustenta. Para o cardeal, esse olhar permite reconhecer que “há muito mais bondade do que corrupção na humanidade”.

A Amazônia lhe ensinou a escutar

Sua experiência amazônica ocupa um lugar prioritário nessa compreensão. O Card. Barreto considera que os povos amazônicos o ajudaram a descobrir uma Igreja que escuta, caminha com as comunidades e se deixa transformar pela realidade.

A seu ver, a Igreja está saindo de uma etapa marcada por uma “fé cansada” e uma “fé estática” para abrir-se a uma conversão que consiste em aprender a praticar a fé comunitariamente: “Estamos nos abrindo às mudanças, que no fundo são uma conversão não apenas de viver a minha fé, mas também de praticá-la em comunidade, neste caminhar juntos”, explica.

O cardeal considera que esse processo é gradual e recorda que o Papa Leão XIV também insistiu no caráter progressivo das transformações. Por isso, convida a deixar que Deus continue atuando na Igreja e em cada pessoa. Nesse caminho, diz, a fé deve ter como fundamento a morte e ressurreição de Jesus: “Um Jesus ressuscitado que nos acompanha, que caminha conosco, que fortalece a nossa esperança”.

Escutar o sofrimento da casa comum

A esperança, para o cardeal, não pode desligar-se da realidade. Por isso, vincula a experiência sinodal à capacidade de escutar os clamores dos povos que sofrem, tanto pelas guerras como pelos desastres naturais e pelos efeitos da mudança climática.

Menciona particularmente a situação de países como Venezuela e Colômbia, além de outros lugares do mundo expostos a terremotos e fenômenos naturais. Para ele, esses acontecimentos também devem interpelar a Igreja.

O cardeal atribui parte dessa crise ambiental a decisões humanas marcadas por interesses econômicos: “Isto é fruto de uma atividade irracional das pessoas que preferiram o dinheiro e a destruição de nossa querida casa comum”, em referência a uma das preocupações centrais do pontificado de Francisco.

Conversão pessoal e transformação comunitária

Questionado sobre a relação entre a conversão pessoal e a sinodalidade, a autoridade eclesial sustenta que ambas as dimensões são inseparáveis. “O pessoal e o comunitário caminham juntos”, assegura. Para ele, a sinodalidade implica “ver, escutar e, sobretudo, escutar o Espírito Santo”, reconhecendo nele aquele que recorda à Igreja as palavras e os ensinamentos de Jesus.

A partir desse olhar, a Igreja tem a responsabilidade de caminhar unida, promovendo a inclusão e a participação. O cardeal reconhece que as mudanças são graduais, mas enfatiza que a realidade atual exige manter viva uma esperança que se traduza em ações: “Temos que manter viva a esperança, e uma esperança posta em ação, em serviço, especialmente aos mais pobres”.

Em um mundo que vive a divisão e a polarização, considera que a Igreja pode oferecer, por meio da sinodalidade, um caminho rumo à unidade. “Somos todos chamados a ser muito ponderados, como Leão XIV nos diz, mas ao mesmo tempo com muita firmeza para indicar o caminho da unidade em um mundo dividido”, assinala.

De uma Igreja que faz pelas comunidades a uma Igreja que caminha com elas

O Card. Barreto também aborda uma das mudanças fundamentais propostas pela sinodalidade: passar de uma Igreja que atua sobre as comunidades para uma Igreja que caminha com elas: “A Igreja somos todos os batizados”. Em sua opinião, existe atualmente um despertar entre leigos, religiosas, religiosos, sacerdotes e bispos quanto à consciência de que todos fazem parte do povo de Deus.

Essa pertença implica assumir as diferentes vocações e colocá-las a serviço de um mesmo caminho: “Temos que assumir também, a partir da vocação específica que o Senhor nos deu, para poder uni-la a este grande caminho de sinodalidade que renova a nossa esperança, renova a nossa prática da caridade”.

O cardeal insiste ainda que o protagonismo não corresponde exclusivamente às estruturas eclesiais: “Não somos nós que fazemos o serviço. É Deus que atua através da Igreja e através de muitas pessoas de boa vontade ou de outros credos que não buscam o interesse pessoal ou de grupo, mas buscam o interesse dos demais”.

“Tarde te amei”: uma nova maneira de exercer o ministério

Depois de 65 anos na Companhia de Jesus e 53 anos como sacerdote, o Card. Barreto identifica na sinodalidade uma das grandes mudanças em sua maneira de exercer o ministério. Retoma a expressão de Santo Agostinho: “Tarde te amei”. Para ele, a sinodalidade representa uma Igreja que procura ser fiel à inspiração do Concílio Vaticano II e que reconhece que todos são chamados a participar.

Nesse processo também descobre com particular força as três virtudes teologais: fé, esperança e caridade. “É uma fé que mantém viva a esperança, mas uma esperança que nos convida à ação em comum”, explica. A seu juízo, a novidade está no fato de que uma fé que muitas vezes permanecia “adormecida” ou reduzida ao âmbito da razão “está descendo ao coração” e mobiliza as pessoas a caminhar com Jesus como comunidade e como povo de Deus.

O purpurado reconhece que esse processo se desenvolve em meio a uma crise muito grande. “Estou vivendo uma crise gravíssima na humanidade, uma crise também na Igreja, mas algo novo está nascendo de dentro da Igreja pelo Espírito Santo”, assegura. E recupera uma frase do cardeal John Henry Newman: “Viver é mudar, e ser perfeito é ter mudado muitas vezes”. Para o cardeal, essas palavras expressam uma Igreja em permanente conversão e renovação.

Papa Leão XIV, continuidade e renovação

Ao falar do Papa Leão XIV, o cardeal Barreto recorda os dias prévios ao conclave, nos quais participou com outros cardeais da definição do perfil que deveria ter o sucessor de Francisco. Enquanto os restos mortais do Papa Francisco ainda se encontravam na Basílica de São Pedro, os cardeais identificaram como uma das prioridades a continuidade do processo de renovação sinodal iniciado durante seu pontificado. Para o purpurado, a eleição de Robert Prevost foi uma resposta providencial a esse perfil: “Foi para mim uma bênção de Deus”.

Entre os aspectos que deveriam marcar a nova etapa, menciona a luta contra os abusos, a reforma da Cúria Romana à luz da Praedicate Evangelium, a transparência econômica e a prestação de contas, a construção da paz, o cuidado da criação e o respeito aos direitos humanos. “Deu-me muito mais esperança. Eu creio que é o Espírito Santo”, sustenta ao recordar a eleição de Prevost, a quem descreve como um homem próximo do Papa Francisco e vinculado à renovação impulsionada pelo Concílio Vaticano II.

O Card. Barreto recorda também as primeiras palavras do Papa Leão XIV sobre a necessidade de construir uma Igreja unida: “Gostaria que nosso primeiro grande desejo fosse uma Igreja unida, um sinal de unidade e comunhão que se torne fermento para um mundo polarizado, necessitado de reconciliação”.

Para o cardeal peruano, a escuta e a sinodalidade continuam sendo elementos centrais do pontificado. Destaca especialmente a confirmação da Assembleia Eclesial de 2028 e a insistência do Papa em uma Igreja mais participativa. “Estou convencido de que foi o Espírito Santo que inspirou nossos irmãos cardeais a escolher alguém que teve a intuição do Espírito de escolher como Papa o nome de Leão XIV”, sustenta.

O retorno do Papa Leão XIV ao Peru

Diante da próxima visita do Papa Leão XIV ao Peru, o Card. Barreto reconhece que o país receberá o Pontífice em um contexto de tensões e polarização. No entanto, considera que sua presença pode ser um sinal de esperança: “Eu creio que ele está vivendo, e nós também com ele, a Páscoa de Jesus, a paixão, o sofrimento, sofrimentos tanto dentro como fora da Igreja, da sociedade”.

Ao mesmo tempo, ressalta o carinho que o Papa despertou em muitas pessoas e sua capacidade de conectar-se com aqueles que procuram fazer do Evangelho uma realidade: “Estou muito feliz, e eu em primeiro lugar, por termos um papa como Robert Prevost, que soube ganhar o coração de muita gente”.

Para o Card. Barreto, o desafio consiste em que o Evangelho não fique reduzido a um discurso: “Aqueles que certamente estamos muito comprometidos em fazer com que o Evangelho seja real. Que o Evangelho não seja simplesmente teoria, mas que sejamos instrumentos, como dizia São Francisco, instrumentos de paz, de justiça e de amor”.

Argentina e Uruguai: uma visita de reconciliação

O cardeal também valoriza que o Papa Leão XIV visite Argentina e Uruguai, dois países que o Papa Francisco não chegou a visitar durante seu pontificado. Para o Card. Barreto, essas visitas representam um sinal de continuidade e, especialmente na Argentina, uma oportunidade para impulsionar um caminho de reconciliação. “A visita do Papa à Argentina vai marcar um caminho de reconciliação no país, que tanta falta faz”, sustenta.

O cardeal recorda que o próprio Jesus advertiu que “nenhum profeta é bem recebido em sua própria terra” e considera que o Papa Leão XIV pode encarnar o espírito de uma Igreja que busca renovar seu rosto e pôr-se a serviço de uma humanidade atravessada pela angústia e pelo sofrimento.

“Esta é a mensagem fundamental, a continuidade na novidade da presença do Papa Leão XIV na terra do Papa Francisco”, manifesta.

“Cristo é o fundamento e o centro de nossa vida”

Ao finalizar a entrevista, o cardeal Barreto evita apresentar sua mensagem como um conselho e prefere compartilhar aquilo que está vivendo pessoalmente. Diante da pergunta sobre por que continua crendo, amando e servindo, responde a partir de três pilares: Cristo, a esperança e a caridade.

“Cristo é o fundamento e o centro de nossa vida. Cristo não é uma ideia, é uma pessoa”, sustenta. Citando a exortação apostólica Evangelii gaudium do Papa Francisco, recorda que “no encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo nasce e renasce a alegria”. Sua fé, explica, não está depositada no sucesso, mas em Cristo morto e ressuscitado: “É uma pessoa viva”.

O segundo elemento é a esperança, que exige escutar os gritos de quem sofre e o clamor da casa comum. E o terceiro é a caridade, mas não entendida como uma atitude passiva: “Uma caridade que atua porque Deus é amor”. E recorda as palavras da carta de Tiago sobre uma fé que deve produzir obras.

Ao concluir, o cardeal Pedro Barreto volta a São Paulo e às três virtudes teologais: “Agora permanecem a fé, a esperança e o amor, mas a maior destas três é o amor”. Para o cardeal, essa perspectiva também permite compreender o momento atual da Igreja. Em meio às dificuldades e às “tempestades”, sustenta, a fé permite confiar que Deus continua acompanhando a história. “Em meio às tempestades e aos problemas, ele nos dá a força para continuar crendo que guia a história de nossas vidas e de toda a humanidade”.

Fonte: ADN Celam

Você pode estar interessado em: Espiritualidade sinodal: um convite a transformar a maneira de caminhar juntos na Igreja

Carte recomandată: IV Congresso Continental de Teologia Latino-Americana e Caribenha Horizontes de libertação: tecendo esperanças a partir de baixo

Inscreva-se em nosso canal Whatsapp: https://whatsapp.com/channel/0029VazM21X6WaKvBlZ91E47

Baixe o último caderno de estudo 011: Caderno de estudo 011


Compartilhar...

Enviar comentario

Su dirección de correo electrónico no será publicada.