O pesquisador e comunicador brasileiro Marcus Tullius reflete sobre os desafios e as oportunidades que a inteligência artificial apresenta para a Igreja no âmbito da sinodalidade.
Mestre em Comunicação Social, com graduação em Filosofia e especialização em comunicação, Igreja e cultura digital, atualmente coordena a comunicação da Cáritas América Latina e Caribe e apresenta o programa “Igreja Sinodal”. Também atuou como coordenador nacional da Pastoral da Comunicação do Brasil de 2018 a 2024 e foi membro do Grupo de Reflexão em Comunicação da Conferência Nacional dos Bispos Católicos do Brasil.
Nesta entrevista, ele aborda a necessidade de “desarmar” a inteligência artificial para colocá-la verdadeiramente a serviço da dignidade humana, da cultura do encontro e da missão evangelizadora da Igreja.
“A inteligência artificial só ajudará a Igreja se ela não substituir o humano, nem simular o humano”
Pergunta: Com base em sua experiência em comunicação eclesial, como a inteligência artificial pode se tornar uma ferramenta a serviço de uma Igreja mais sinodal e mais próxima das pessoas?
Resposta: A inteligência artificial só ajudará a Igreja se ela não substituir o humano, nem simular o humano. Este é o ponto de partida. As pesquisas recentes, os distintos documentos de reflexão e diretrizes preparado por diversas realidades da Igreja tem apontado para isso, para a primazia do ser humano. Tudo isso está em sintonia com o magistério recente do Papa Francisco e do Papa Leão XIV.
Primeiramente a Igreja deve ser interpelada por esses desafios lançados pela Inteligência Artificial e por esta revolução digital em pleno vapor. Creio que se usada com discernimento, com transparência, com senso de responsabilidade e cuidado com o ser humano e com a casa comum, pode ampliar, por exemplo, as oportunidades formativas e pode contribuir facilitando processos de consulta, tradução, sistematização de contribuições e acesso ao conhecimento. Na América Latina e no Caribe, por exemplo, a IA pode ajudar a aproximar conteúdos formativos de comunidades com menos recursos ou superar barreiras linguísticas e educativas.
Entretanto, é importante sublinhar que a tecnologia não pode substituir a experiência humana e espiritual do encontro com Deus e com o outro. Uma das frases que o Papa Leão XIV usa na encíclica Magnifica Humanitas que mais me chamou atenção está no parágrafo 100, dizendo que “o risco não é tanto que uma pessoa acredite estar a falar com outra, mas que perca o desejo de procurar verdadeiramente o outro”. Não podemos substituir as relações por interações com tecnologias que não são neutras. A IA deve ser compreendida como uma ferramenta a serviço da pastoral e não como um sujeito pastoral. Seu valor depende da intencionalidade com que é utilizada. Quando orientada para o bem comum, para a inclusão e para a cultura do encontro, pode fortalecer processos sinodais; mas, quando utilizada apenas sob a lógica da eficiência ou do controle, corre o risco de empobrecer a experiência comunitária.
Construindo relacionamentos
P: Você costuma falar de comunicação que humaniza. Num contexto em que o uso da inteligência artificial está crescendo, como podemos evitar que a comunicação pastoral perca sua capacidade de escuta, empatia e conexão humana?
R.: O grande desafio é recordar que comunicar não é simplesmente transmitir informação, mas construir relações. A comunicação pastoral nasce do encontro, da capacidade de olhar para a pessoa concreta que se encontra à sua frente, escutar suas dores, suas perguntas e suas esperanças. Nenhuma ferramenta tecnológica pode substituir a experiência de sentir-se acolhido e reconhecido por outro ser humano.
Por isso, o critério principal não deve ser “o que a IA pode fazer”, mas “que tipo de humanidade queremos promover”. Existe o risco de uma pastoral automatizada, rápida e eficiente, mas vazia de sensibilidade humana. Que sentido tem, por exemplo, uma homilia produzida em segundos, uma resposta automática ou um conteúdo perfeitamente otimizado para as redes? Pode ter grande alcance, mas não necessariamente geram comunhão.
O Papa Leão XIV, na própria encíclica Magnifica Humanitas usou algumas vezes a palavra desarmada para se referir à IA e também no discurso de apresentação reiterou que foi usada intencionalmente. De fato, não basta regular, mas é preciso desarmar a Inteligência Artificial e torná-la acolhedora, como afirma no número 110. A IA pode ajudar em tarefas operacionais, mas a empatia, o discernimento e o cuidado pastoral continuam sendo profundamente humanos.
Talvez precisemos recuperar as coisas simples da nossa humanidade. Olhar nos olhos, deixar de ser interrompidos pelas notificações do celular por alguns instantes e dar plena atenção a quem está à nossa frente, cultivar o silêncio, dar um abraço. Uma comunicação que humaniza passa, obrigatoriamente, pelos sentidos e parte do coração.
Desafio ecológico
P: Quais são, em sua opinião, os principais desafios éticos e pastorais que a inteligência artificial apresenta hoje para os comunicadores católicos e para a missão evangelizadora da Igreja?
Um dos principais desafios é evitar que a lógica do mercado e dos algoritmos passe a determinar também a lógica pastoral. Muitas plataformas digitais privilegiam o conflito, a polarização, a desinformação o sensacionalismo porque isso gera mais interação. O risco é que a Igreja adote, mesmo sem perceber, formas de comunicação agressivas, superficiais ou manipuladoras. Este é um contratestemunho ao Evangelho!
Não podemos sucumbir à lógica da produção artificial de imagens, vozes e textos. Um simples rolar do feed em perfis religiosos institucionais ou pessoais, nos dá a ideia de que estamos voltando à caverna de Platão. Destaco que, além de ser uma perda da identidade na geração de conteúdos, produzidos de forma pasteurizada, é também um fechamento à ação do Espírito Santo que inspira a, sendo redundante, criar criativamente. Não sou criar, mas fazê-lo de maneira criativa, respondendo à sua realidade pastoral. A IA pode nos levar à ilusão de que tudo pode ser automatizado, inclusive dimensões humanas como a interioridade, o discernimento. O comunicador cristão precisa ter claro que a evangelização não é apenas produção de conteúdo; é experiência de fé pessoal e vivida em comunidade.
Há também um desafio antropológico e espiritual. Na mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, o Papa Leão XIV dizia que o desafio não é tecnológico, mas antropológico. Na Magnifica Humanitas acrescenta que não é apenas ética ou técnica, mas ecológica. Este é um desafio pouco falado nos nossos espaços de formação e comunicação. O cuidado com a casa comum e com os pobres nunca podem estar em segundo plano. É louvável que a encíclica toque nestes dois aspectos para a sua preocupação pastoral. Muitas vezes usamos de maneira indiscriminada as ferramentas de IA generativa, inclusive para fazer coisas corriqueiras, que poderíamos tranquilamente fazer de maneira autônoma.
Por isso, penso que a Igreja deve promover uma alfabetização digital crítica e ética, formando não só os comunicadores, mas formando todas os crentes a serem capazes de discernir não apenas como usar a tecnologia, mas também quais visões de humanidade estão presentes por trás de cada tecnologia. Creio que os comunicadores tem uma tarefa importante de levar este diálogo para as suas realidades, despertando o interesse de outras pastorais e movimentos.
Ecutar juntos o Espírito Santo em em cada realidade
P: O Papa Francisco e agora o Papa Leão XIV enfatizaram a necessidade de uma comunicação que construa comunhão. De que forma a inteligência artificial pode ajudar ou dificultar os processos de participação e discernimento inerentes à sinodalidade?
R.: A sinodalidade não consiste apenas em reunir opiniões (senão seria uma ouvidoria), mas em escutar juntos o Espírito Santo em cada realidade. E isso exige silêncio, encontro, oração, sensibilidade e capacidade de deixar-se interpelar pelo outro. Coisas que são puramente humanas. Me chamou a atenção que dentre as duas referências bíblicas usadas pelo Papa Leão XIV na Magnifica Humanitas, uma é sobre a confusão e a pretensão de bastar-se a si mesma (Torre de Babel) e a outra é um caminho prático de sinodalidade com a reconstrução de Jerusalém narradas no livro de Neemias.
Este “caminho de Neemias”, usando a expressão de Leão XIV em MH 10, é um caminho pedagógico paras comunidades cristãs para favorecer a participação de todos. O Papa Leão XIV tem insistido muito na necessidade de “desarmar a comunicação” e agora conclama a desarmar a IA. Quando os algoritmos favorecem a agressividade, a radicalização ou a criação de bolhas ideológicas, dificultam precisamente aquilo que a sinodalidade busca construir: comunhão na diversidade.
Assim, para não responder apenas se ajuda ou atrapalha; ou uma ou outra, diria que as tecnologias, especialmente a inteligência artificial, podem oferecer algumas ferramentas que impulsionem o caminho sinodal, mas não pode substituir a dimensão espiritual e comunitária do discernimento eclesial.
“Ver o rosto humano por trás de cada interação digital”
P: Pensando nas novas gerações de agentes de Comunicação Pastoral, que atitudes espirituais, humanas e formativas devem ser cultivadas para usar a inteligência artificial de forma responsável e verdadeiramente evangelizadora?
R.: Antes de habilidades técnicas, penso que precisamos formar sensibilidade humana e espiritual. A pergunta fundamental não é apenas “como usar”, mas “para quem” e “a serviço de quê”, “quando”, “com que finalidade”… e assim por diante. O tempo que um agente levará para responder todas as perguntas será o tempo que ele gastaria para criar o que ele precisa. Se a inteligência artificial impede que um agente encontre o outro, o seu irmão de comunidade, ela já foi um empecilho para ele responder com plenitude a sua missão. Este é um ponto. Segundo é ter uma profunda consciência ética, transparência. Às vezes é possível ver conteúdos que são nitidamente produzidos com IA e que sequer são identificados.
Creio que algumas atitudes são fundamentais: capacidade de escuta – do Espírito, dos outros e da realidade; humildade intelectual; pensamento crítico; responsabilidade com a verdade e compromisso com os pobres e a casa comum. Também é importante aprender a habitar o ambiente digital sem perder a experiência concreta de comunidade. A encíclica de Leão XIV, de diversas maneiras, aponta-nos que discernir o nosso caminho na história é uma tarefa comunitária. Portanto, não é possível estar longe da comunidade, ela é fundamental na nossa experiência de fé. E pastoral sem comunidade, desencarnada e desenraizada, não tem sentido.
Do ponto de vista formativo, já não basta ensinar apenas ferramentas. É necessário compreender profundamente a cultura digital. Vivemos em uma realidade “onlife”, como afirma Luciano Floridi. A vida acontece nessa integração permanente. Você não precisa mais dizer que vai entrar na internet, porque você já não sai dela. Por isso, a pastoral precisa formar pessoas capazes de discernir as dinâmicas culturais, econômicas e políticas presentes nas tecnologias.
E, finalmente, penso que precisamos recuperar algo muito evangélico: a capacidade de olhar o rosto humano por trás de cada interação digital. Parafraseando o Papa Francisco que gostava de definir a comunicação como proximidade, ouso dizer que a evangelização sempre será um ato de proximidade.
“Que tipo de sociedade e que tipo de humanidade queremos construir?”
P: Gostaria de acrescentar algo ou deixar alguma mensagem?
R.: Fugindo da tenção do “pode ou não pode”, “sim ou não”, creio que como comunicadores e como agentes de pastoral, é preciso assumir este caráter ambivalente da revolução digital e de tudo que a inteligência artificial está provocando. Não é tema do futuro, é tema do presente. E é um dos grandes desafios culturais e espirituais do nosso tempo. A pergunta não é apenas tecnológica, mas profundamente humana: que tipo de sociedade e que tipo de humanidade queremos construir?
A Igreja não é chamada a demonizar a tecnologia, mas também não pode aceitá-la ingenuamente. Sua missão é oferecer critérios éticos, espirituais e humanos que ajudem a colocar a inovação a serviço da dignidade humana, da justiça e da fraternidade. Creio que em grande parte, a Magnifica Humanitas responde a estes anseios e propõe um caminho bonito de atualização da Doutrina Social da Igreja.
Em um tempo marcado pela velocidade e pela hiperconectividade, talvez o maior testemunho cristão seja justamente recordar que nenhuma tecnologia pode substituir o estilo comunicativo de Deus: da proximidade, da compaixão e da ternura.
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