Por José Beltrán
Fonte original: Vida Nueva, 4 de outubro de 2026. Consultar a publicação original
Uma Igreja ‘semper reformanda’. Essa é a marca que, há décadas, orienta as comunidades católicas da América Latina e do Caribe. A começar pelas 22 conferências episcopais que integram o Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (CELAM). É nesse horizonte que se compreende o projeto impulsionado pelo Centro Bíblico Teológico Pastoral (CEBITEPAL), que busca estudar e propor uma renovação e reestruturação dos episcopados em chave sinodal.
O projeto é liderado pela Secretaria-Geral do CELAM, sob a condução do arcebispo agostiniano Lizardo Estrada, e pelo CEBITEPAL, dirigido pelo teólogo venezuelano Rafael Luciani. Professor da Escola Jesuíta de Teologia da Universidade de Santa Clara, o teólogo venezuelano compartilha com a ‘Vida Nueva’ as inquietações e os desafios desta proposta, que pretende chegar a cerca de 1.500 bispos de todo o continente.

PERGUNTA.- Como se pode projetar a reestruturação de tantas conferências episcopais para que ela não fique apenas em uma ‘mudança de fachada’?
RESPOSTA.- O projeto foi concebido para não permanecer no plano ideal. Procuramos combinar duas linhas de trabalho que avançam juntas. Uma estuda o estatuto teológico e canônico das conferências episcopais com um grupo de especialistas de vários continentes, a fim de dar um passo adiante no debate teológico e canônico sobre a identidade desse organismo episcopal. Com isso, queremos oferecer uma contribuição importante à teologia e propor mudanças concretas no Código.
A outra é a linha que investiga como elas funcionam hoje e quais são seus modelos organizacionais, pois há diferenças importantes entre uma e outra. Fazemos isso por meio de entrevistas, estudos de caso, mapeamento organizacional e análise de documentos, como os estatutos e os manuais de funcionamento existentes. Além disso, estamos trabalhando nas duas linhas junto com os bispos, discernindo e decidindo com eles. É interessante acompanhar o desenvolvimento inicial de um trabalho que está articulando teólogos, canonistas e bispos.
Uma das coisas a que nos propusemos desde o início foi evitar que a sinodalidade se reduzisse a uma declaração de boas intenções ou a dinâmicas puramente ideais. Por isso, incorporaremos a contribuição das ciências sociais e políticas para estudar as organizações e identificar que práticas podemos aprender para possíveis modelos institucionais eclesiais nos quais existam prestação de contas, mecanismos de participação e modelos de tomada de decisão compartilhada. Tudo isso nos ajudará a pôr em prática aquilo que, no Sínodo, denominamos corresponsabilidade diferenciada.
Além disso, o projeto não termina em um relatório. Contempla o desenho de uma experiência-piloto de implementação em conferências episcopais que manifestem interesse e possam se candidatar. Por isso, sonhamos com a criação de uma instância estável dentro do CELAM para animar e acompanhar as conferências episcopais em processos de renovação e reestruturação em chave sinodal.
P.- Em que etapa do projeto vocês se encontram exatamente?
R.- Atualmente estamos revisando e analisando o estado atual de adoção de práticas sinodais nas conferências episcopais, bem como o desenvolvimento da reflexão teológica e canônica contemporânea, procurando identificar os obstáculos e saber como podemos avançar. Há um grupo de especialistas que reúne mais de 20 teólogos e canonistas de diferentes países e continentes.
Algo interessante é que esses teólogos especialistas não trabalham de modo isolado. Criamos grupos de bispos que nos acompanham como consultores especialistas. Um deles, por exemplo, é formado por todos os secretários-gerais das conferências episcopais da América Latina e do Caribe; outro, pelos responsáveis pela Doutrina.
Embora a maior parte do trabalho seja realizada on-line, um momento importante para a elaboração do projeto foi o primeiro encontro presencial de trabalho, realizado nas instalações do CELAM em maio deste ano. Teremos o segundo em fevereiro de 2027.
A fase atual do projeto, que é a primeira, começou em abril e terminará em maio do próximo ano, com a entrega das conclusões e das propostas concretas à 41ª Assembleia Geral Ordinária do CELAM, que se reunirá no Panamá e contará com a participação das presidências de todas as conferências episcopais, bem como de autoridades do Vaticano e representantes de outros organismos eclesiais continentais. Depois da Assembleia, terá início a fase 2, com experiências-piloto.
P.- Houve quem pensasse que, com a morte de Francisco, a sinodalidade desapareceria ou se diluiria. Leão XIV parece tê-la retomado com força, e este projeto de reestruturação a tem como um pilar fundamental…
R.- Em um artigo que escrevi recentemente para a ‘Christus’ (‘Chaves emergentes sobre a sinodalidade em Leão XIV’), sustento que este pontificado se configura como um exercício de equilíbrio no qual convergem três elementos: a continuidade do magistério de Francisco, uma atualização programática da recepção do Concílio Vaticano II e o desenvolvimento da tradição à luz da sinodalidade. Isso situa a eleição de Leão XIV em uma quinta fase da recepção do Concílio.
Hoje podemos destacar duas ênfases que o Papa tem dado à compreensão da sinodalidade. A primeira está relacionada com os organismos de participação, como os conselhos pastorais, chamando de modo muito particular a atenção para a participação de todos nos processos decisórios. Isso ele demonstrou em vários discursos em Roma e também durante sua visita a Madri. A segunda relaciona a sinodalidade com um exercício ampliado da colegialidade episcopal, o que podemos chamar de colegialidade sinodal.
Este projeto insere-se nessa direção: compreender a colegialidade à luz da sinodalidade e pensar como, nas instituições episcopais, a colegialidade pode ser exercida sinodalmente.
Comunhão eclesial
P.- Há avanços teológicos alcançados neste curto período de trabalho?
R.- À medida que o grupo de teólogos e canonistas especialistas aprofunda o chamado feito pelo número 125 do ‘Documento Final do Sínodo’, vamos descobrindo coisas muito interessantes. No âmbito teológico, eu destacaria, por enquanto, três. O primeiro é uma mudança metodológica. Durante décadas, a pergunta foi: ‘que competências têm as conferências episcopais?’, e daí se deduzia todo o restante. Nós invertemos essa lógica:
- Primeiro, há uma responsabilidade eclesial compartilhada que nasce da comunhão entre Igrejas que vivem uma mesma missão; daí surge o sujeito regional, depois a autoridade e, somente ao final, as competências jurídicas.
- O segundo é compreender a conferência não como uma reunião de bispos com poder delegado, mas como expressão da comunhão entre Igrejas locais. Se o bispo representa sacramentalmente sua Igreja, a comunhão entre os bispos expressa a comunhão entre essas Igrejas, e não o contrário. Isso retira a discussão do beco sem saída em que havia ficado presa na teologia da colegialidade.
- E o terceiro, talvez o mais significativo: o magistério regional já não se explica apenas pela potestade dos bispos, mas pela integração do sentido da fé de todo o Povo de Deus com o discernimento episcopal. É o que chamamos de uma colegialidade exercida sinodalmente ou colegialidade sinodal, fundada na ação do Espírito, que se manifesta em todos os sujeitos e em todas as Igrejas, e não apenas na hierarquia. Isso já havia sido destacado pelos padres conciliares em ‘Lumen gentium’ 12, ao falar do ‘sensus fidei’.
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