Leão XIV em Cusco: entre a mística andina, o quéchua e a sinodalidade

Leão XIV em Cusco: entre a mística andina, o quéchua e a sinodalidade
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Mais de quarenta anos depois de São João Paulo II beijar o solo andino, a Cidade Imperial volta a se comover com a visita apostólica de Leão XIV ao Peru. O encontro com o Santo Padre vem tocando as fibras mais profundas da Igreja cusquenha, que convive com a devoção popular, a evangelização das comunidades de língua quéchua e os processos de sinodalidade nas regiões alto-andinas.

O terceiro episódio da série documental «Leão XIV volta para casa», promovida pela Arquidiocese de Lima, permite-nos conhecer os preparativos para a chegada do Sumo Pontífice a Cusco, onde estão previstos dois momentos significativos: o encontro mariano no Parque Arqueológico de Sacsayhuamán e o Ângelus na Praça de Armas da cidade.

Para a Igreja de Cusco, Leão XIV não é uma figura distante. Seus anos de serviço pastoral no norte do país e seu trabalho na Conferência Episcopal Peruana (CEP) deixaram uma marca indelével. Dom Richard Daniel Alarcón Urrutia, arcebispo metropolitano de Cusco, recordou como era Robert Prevost com seus irmãos no episcopado:

«Uma pessoa muito simples, que não fala muito, uma pessoa muito serena e capaz. Quando tínhamos os debates, nunca se exaltava nem tentava se impor. É uma pessoa que proporciona um ambiente de paz», comentou em diálogo com o jornalista Juan José Dioses.

Dom Richard Alarcón, arcebispo de Cusco.

Dom Alarcón recordou um momento memorável: a passagem de Prevost pela Catedral da cidade, em plena pandemia, quando compareceu para concelebrar na ordenação do bispo auxiliar, Dom Lizardo Estrada: «Concelebramos juntos a Santa Missa, mas foi algo muito curioso, porque naquela época não se podia celebrar com grande número de pessoas. Então, fizemos assim, clandestinamente, na Catedral, com alguns convidados que precisavam entrar por diferentes lugares para não serem vistos», relatou.

Nossa Igreja precisa se fazer uma pergunta muito importante: que Igreja Leão XIV encontrará quando chegar e que Igreja seremos nós, daqui em diante, quando ele partir?
DOM RICHARD ALARCÓN

O itinerário em Cusco

O padre Julio Velazco, responsável pelo escritório de comunicação da Arquidiocese de Cusco, deu detalhes sobre as atividades previstas para 15 de novembro, quando haverá dois grandes marcos que abraçam as devoções fundantes do povo cusquenho:

Encontro Mariano em Sacsayhuamán: quando será entregue a Rosa de Ouro à «Mamacha de Belén», padroeira jurada da cidade, em um encontro de oração com a participação de milhares de fiéis.

Oração do Ângelus e encontro eclesial: serão realizados na Praça de Armas de Cusco, onde o Santo Padre entregará um sudário pontifício ao Taytacha dos Tremores, padroeiro da cidade. Participarão também o clero, religiosas, enfermos e pessoas em situação de vulnerabilidade.

Padre Julio Velazco (comunicação da Arquidiocese de Cusco)

Para promover uma caminhada de preparação pastoral, a Arquidiocese de Cusco, por meio de sua Vigaria Pastoral, vem desenvolvendo uma campanha de adoração ao Santíssimo, catequese sobre a figura petrina e fortalecimento do processo sinodal nas 85 paróquias que constituem a jurisdição eclesiástica.

«Queremos insistir para que não seja apenas uma visita protocolar, da foto e da bênção, e acabou. Queremos, ao contrário, semear as sementes da mensagem do Santo Padre […] insistir para que todos sejamos construtores da paz», explicou Dom Alarcón.

Pastoral Andina com as comunidades de língua quéchua de Cusco.

«Teologia a partir de baixo» e sinodalidade em Cusco

À frente da articulação pastoral arquidiocesana está o padre Heberth Challco, que coordena a preparação eclesial e as visitas às 85 paróquias diocesanas. A partir da Vigaria Pastoral, o sacerdote sublinha com firmeza que a passagem do Papa não pode se esgotar em um evento midiático:

«Em cada visita paroquial, trabalha-se a escuta ativa: fazer uma teologia a partir de baixo, saber escutar o povo. Muitas vezes, como Igreja, podemos olhar de cima e não compreender a realidade e a necessidade espiritual do povo. Dizemos ao nosso povo que expresse o que pensa: as coisas bonitas e os questionamentos. Estamos indo até as paróquias mais humildes, as mais distantes, de língua quéchua, ampliando sua participação ativa e já não apenas como espectadores», afirmou Challco.

Processo sinodal na Arquidiocese de Cusco.

Esse árduo trabalho missionário nas regiões mais afastadas é destacado por Dom Richard Alarcón como uma oportunidade para que a Igreja «conheça a realidade de nosso povo, seus valores e suas necessidades». E acrescentou:

Tive a oportunidade de chegar a povoados depois de caminhar de seis a oito horas, onde não há água nem energia elétrica: tudo isso nos impacta e nos ajuda a unir o Evangelho à pessoa humana, que deve viver com dignidade.
DOM RICHARD ALARCÓN

A fé como resposta a um país ferido

A expectativa que mobiliza a Cidade Imperial não ignora a dureza do contexto social nem as fraturas de um país atingido pela incerteza e pela violência. Por isso, a preparação pastoral insiste em que a presença do Sucessor de Pedro deve tocar as chagas do povo:
«Esperamos que sua mensagem traga paz e calma. Nosso país está muito afetado pela insegurança, e acredito que sua mensagem possa alegrar o coração deste povo», declarou Luis Felipe Murillo, membro da Comissão de Relíquias do Senhor dos Tremores.

Junto com esse anseio, a Igreja de Cusco recorda a voz profética do então bispo de Chiclayo, Robert Prevost, quando tomou a palavra na ordenação de Lizardo Estrada para transmitir uma mensagem centrada na colegialidade apostólica e na comunhão eclesial:

Nossa unidade como bispos, sempre unidos ao Santo Padre, é um sinal e uma mensagem para toda a Igreja no Peru. Se um bispo deve cuidar especialmente de sua Igreja local, o Senhor também nos chama a ser esse sinal da unidade com o Papa, de toda a Igreja. Como nos diz São Paulo: «não há grego nem judeu», não há francês nem americano; somos todos irmãs e irmãos.
ROBERT PREVOST EM CUSCO (2021)

Aquele chamado à unidade ganha hoje um eco providencial: o bispo que, em 2021, exortava, do presbitério cusquenho, a permanecer em comunhão com o Sucessor de Pedro é agora quem regressa revestido do ministério petrino como Leão XIV, para confirmar na fé a comunidade onde deixou uma marca de fraternidade.

Assessoria de imprensa da Arquidiocese de Lima durante entrevista com o arcebispo de Cusco, Richard Alarcón.

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