O acesso de leigos e pessoas consagradas a cargos de responsabilidade marca a reflexão sinodal na América Latina e no Caribe

O acesso de leigos e pessoas consagradas a cargos de responsabilidade marca a reflexão sinodal na América Latina e no Caribe
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Teólogos, agentes pastorais e líderes leigos enfatizaram que o batismo constitui o fundamento da corresponsabilidade na Igreja e apelaram para a ampliação da participação efetiva de leigos e consagrados nos processos de discernimento, tomada de decisão e liderança pastoral.

No âmbito do processo de implementação do Sínodo sobre a Sinodalidade, a Equipe Continental para a Animação do Sínodo e o Centro de Formação CEBITEPAL do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (CELAM) realizaram o segundo encontro virtual dedicado ao estudo de um dos temas do Documento Final do Sínodo: o acesso efetivo de leigos e consagrados a cargos de responsabilidade na Igreja.

O evento fez parte de uma série de encontros realizados na segunda e quarta sextas-feiras de cada mês durante o ano de 2026, com o objetivo de apoiar a recepção e implementação das diretrizes sinodais em paróquias, dioceses, conferências episcopais e organizações eclesiais na América Latina e no Caribe.

Durante a abertura, foi lembrado que este itinerário visa aprofundar as dez áreas pastorais propostas para a implementação do Sínodo, privilegiando processos de discernimento comunitário que permitam construir uma Igreja mais participativa, corresponsável e missionária.

Batismo, fundamento da corresponsabilidade eclesial

A reflexão baseou-se no número 60 do Documento Final do Sínodo, que afirma que homens e mulheres gozam de igual dignidade no Povo de Deus em virtude do batismo.

Além disso, foi destacada a convocação da Assembleia Sinodal para a plena implementação de todas as oportunidades já contempladas na legislação vigente para a participação das mulheres na vida eclesial, especialmente nos locais onde ainda não foram implementadas.

O documento afirma explicitamente que “nada impede as mulheres de ocuparem cargos de liderança na Igreja” e acrescenta que “o que vem do Espírito Santo não pode ser impedido”.

O conteúdo do número 77 do Documento Final também foi relembrado, o qual propõe uma participação mais ampla de leigos e leigas nos processos de discernimento e tomada de decisões eclesiais, um acesso mais amplo a cargos de responsabilidade em dioceses, seminários, institutos e faculdades de teologia, um maior reconhecimento da vida consagrada e uma maior presença de leigos qualificados nos processos canônicos.

César Kuzma: “Todos nós somos sujeitos eclesiais”

A primeira apresentação foi feita pelo teólogo brasileiro César Kuzma, doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e coordenador executivo do Fórum Mundial de Teologia e Libertação desde fevereiro de 2026.

Kuzma argumentou que a implementação do Sínodo é um processo contínuo que desafia toda a Igreja e requer uma revisão de práticas, estruturas e modelos de formação que ainda não refletem plenamente a dinâmica sinodal proposta pelo Concílio Vaticano II.

Como ele explicou, a Igreja sinodal só pode ser compreendida a partir da eclesiologia conciliar, que reconhece a Igreja como Povo de Deus e destaca a participação de todos os batizados na missão evangelizadora.

“O Vaticano II coloca o batismo como ponto de referência. Através do batismo, todos somos chamados a ser sujeitos eclesiais”, disse ele.

O teólogo destacou que essa compreensão rompe com os modelos anteriores, nos quais o clero figurava como o único ator ativo dentro da estrutura eclesial, enquanto os leigos ocupavam um papel predominantemente passivo. “A Igreja coloca Cristo no centro, e todos nós estamos ao seu redor, enriquecidos por dons e carismas”, explicou.

Kuzma insistiu que a participação dos leigos não surge simplesmente de uma vontade pessoal, mas do reconhecimento dos carismas que o Espírito Santo concede para o serviço da comunidade.

Ele também enfatizou que a participação inclui espaços para discernimento e tomada de decisões, onde todos os membros do Povo de Deus são chamados a colaborar de acordo com sua própria vocação.

Comunidades eclesiais básicas como uma experiência inspiradora

Dentre as experiências latino-americanas que podem iluminar o caminho sinodal, Kuzma destacou o papel histórico das Comunidades Eclesiais de Base. Segundo ele, essas comunidades desenvolveram uma dinâmica em que a Palavra de Deus ocupa o centro da vida eclesial e em que homens e mulheres participam ativamente dos diversos ministérios e serviços pastorais.

Ele também valorizou a crescente presença de leigos e leigas em órgãos diocesanos, organizações pastorais, universidades católicas e instituições eclesiais, tanto local quanto internacionalmente.

Para o teólogo, a sinodalidade não implica substituir as responsabilidades dos bispos, padres ou religiosos, mas promover uma participação corresponsável que permita que a voz de todo o Povo de Deus seja ouvida.

Carolina Bacher: Pentecostes revela uma Igreja diversa

A segunda apresentação foi feita por Carolina Bacher Martínez, doutora em Teologia Pastoral, professora da Universidade Católica da Argentina e membro da Equipe Teológica Pastoral do CELAM.

Sua reflexão começou com uma reinterpretação do Pentecostes como uma imagem inspiradora para a Igreja sinodal. Bacher lembrou que o relato nos Atos dos Apóstolos mostra que o Espírito Santo desceu sobre uma comunidade diversa composta por homens, mulheres, discípulos e apóstolos. “Todos foram cheios do Espírito Santo“, enfatizou.

Como ele explicou, essa diversidade original faz parte do plano de Deus para a Igreja e constitui um ponto de referência para a compreensão da participação de todos os batizados na missão.

O teólogo argumentou que o processo sinodal nos convida a expandir as possibilidades de participação e corresponsabilidade nas comunidades cristãs, para que a missão evangelizadora seja mais significativa e alcance mais pessoas.

Mais oportunidades de liderança para mulheres

Bacher destacou, em particular, o apelo do Documento Final para a criação de maiores espaços de liderança e autoridade para as mulheres. Ela lembrou que o Papa Francisco elevou a memória litúrgica de Santa Maria Madalena à condição de festa litúrgica, reconhecendo sua importância na missão evangelizadora da Igreja.

Ela também destacou que já existem experiências de freiras pregando retiros para seminaristas e padres, teólogos oferecendo treinamento para bispos, mulheres coordenando comunidades paroquiais e leigas participando de conselhos pastorais.

Ela também afirmou que a implementação dessas mudanças requer a devida aceitação tanto de mulheres quanto de homens. Nesse sentido, enfatizou a necessidade de as mulheres confiarem em seus talentos e estarem dispostas a assumir responsabilidades quando solicitadas.

Ela enfatizou a importância de fortalecer a irmandade e o apoio mútuo entre as mulheres para acompanhar esses processos.

Além disso, ele destacou a necessidade de os homens aceitarem naturalmente a presença das mulheres em espaços tradicionalmente ocupados por homens, reconhecendo os dons que o Espírito Santo suscita em toda a Igreja.

Janet Rincón: A sinodalidade começa na família

A primeira experiência testemunhal foi conduzida por Janet Rincón Morales, uma leiga venezuelana, membro da Comunidade de Vida Cristã e coordenadora do Observatório Antropológico e Pastoral do Centro de Gestão do Conhecimento do CELAM.

Rincón relatou que sua experiência sinodal começou muito antes de assumir responsabilidades eclesiais. “Minha escola de sinodalidade não começou em um escritório diocesano ou em uma paróquia; começou à mesa que compartilhávamos em casa“, compartilhou.

Ele lembrou que seu pai, membro do Movimento Cursilho, ensinou-lhes desde cedo a compreender que a Igreja é responsabilidade de todos os batizados.

A leiga venezuelana explicou que a formação espiritual, doutrinal e pastoral recebida na família e nas comunidades eclesiais era essencial para, posteriormente, assumir responsabilidades em diferentes níveis da vida eclesial.

Participe sem competir com os ministérios ordenados

Rincón enfatizou que a corresponsabilidade leiga não visa substituir ou enfraquecer os ministérios ordenados. Pelo contrário, afirmou que ela permite que padres e bispos se concentrem em tarefas especificamente relacionadas à sua vocação, enquanto os leigos colaboram nas esferas pastoral, administrativa, educacional e social.

Ela também compartilhou experiências de participação conjunta entre religiosas e leigos em diversas atividades pastorais de congregações religiosas, onde as decisões são tomadas em conjunto para garantir a continuidade do carisma e das obras apostólicas.

Além disso, ele enfatizou a importância de os leigos atuarem como a voz da Igreja em espaços públicos, organizações internacionais e áreas de formulação de políticas públicas.

Porto Rico: uma experiência de corresponsabilidade diocesana

O segundo testemunho foi apresentado por Ángel David Montes Reyes, coordenador do Vicariato de Pastoral da Diocese de Caguas, Porto Rico.

Montes explicou que seu envolvimento começou na juventude, representando a pastoral da juventude no conselho pastoral da paróquia. Mais tarde, assumiu várias responsabilidades diocesanas e nacionais até ser nomeado coordenador diocesano de pastoral e missões. Atualmente, participa de órgãos consultivos e de discernimento que auxiliam o bispo no planejamento pastoral da diocese.

Um dos frutos mais importantes do processo sinodal em Caguas foi a criação do Conselho Pastoral Diocesano e do Conselho Permanente para a Sinodalidade Diocesana. Ambos os órgãos incluem leigos, religiosas, diáconos e sacerdotes, garantindo ampla representação dos diversos estados de vida presentes na Igreja.

A participação não enfraquece a autoridade episcopal

Durante o diálogo final, surgiram preocupações quanto ao papel dos leigos nos processos de tomada de decisão e o potencial impacto sobre a autoridade dos bispos. Em resposta a essas questões, os oradores afirmaram que a sinodalidade não elimina as responsabilidades inerentes a cada vocação, nem substitui a autoridade episcopal.

Kuzma explicou que a novidade do processo sinodal reside no fato de que as decisões pastorais não são mais resultado exclusivo de uma única pessoa, mas de um processo de escuta, discernimento e participação da comunidade.

Por sua vez, Janet Rincón afirmou que a corresponsabilidade dos leigos não diminui a missão dos ministros ordenados, mas permite uma melhor distribuição de tarefas para fortalecer a ação evangelizadora.

Ángel David Montes acrescentou que a experiência em Porto Rico demonstra que a colaboração entre leigos e bispos fortalece a comunhão eclesial e promove uma melhor resposta pastoral.

Formação para construir uma Igreja sinodal

Ao final da reunião, foi enfatizado que a formação é condição essencial para o avanço da implementação do Sínodo. Portanto, a CEBITEPAL anunciou a continuidade de seu programa de formação para 2026, oferecendo cursos online e diplomas para agentes pastorais, leigos, religiosos e ministros ordenados.

O programa inclui tópicos como sinodalidade, ministério leigo, iniciação cristã, teologia do povo, cristologia latino-americana, ministério na mineração e renovação paroquial.

Os responsáveis pela reunião lembraram que 2026 é um ano crucial para a implementação do Documento Final do Sínodo, enquanto 2027 será dedicado aos processos de avaliação diocesana e nacional, culminando em 2028 com as assembleias continentais e a Assembleia Eclesial.

O dia terminou com um convite para continuarmos a construir uma Igreja onde a comunhão, a participação e a missão se expressem cada vez mais plenamente através da corresponsabilidade de todos os batizados.

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