Cardeal Steiner: “A caminhada sinodal significa também levar a sério a ecologia integral”

Cardeal Steiner: “A caminhada sinodal significa também levar a sério a ecologia integral”
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A ecologia integral faz parte da caminhada sinodal da Igreja e deve ocupar um lugar central em sua vida, em sua missão evangelizadora e em sua relação com a sociedade. Assim afirmou o cardeal Leonardo Ulrich Steiner, arcebispo de Manaus e presidente da Conferência Eclesial da Amazônia (Ceama), durante a coletiva de imprensa de apresentação do IV Encontro Sinodal Fratelli Tutti: diálogo socioambiental Norte-Sul.

O purpurado afirmou que falar de sinodalidade implica também escutar e levar a sério as realidades dos povos que habitam os territórios afetados pela crise socioambiental, particularmente na Amazônia. Nesse sentido, enfatizou a importância de reconhecer a experiência dos povos indígenas e das comunidades tradicionais, entre elas os quilombolas, comunidades formadas por descendentes de pessoas que escaparam da escravidão no Brasil.

Faz parte da caminhada sinodal incluir a ecologia integral”, afirmou o cardeal Steiner, que também relacionou esse processo à caminhada aberta pelo Papa Francisco por meio da Laudato Si’.

Ecologia integral que ilumine a Igreja

“A ecologia integral, com Laudato Si’ e, depois, com Fratelli Tutti, abriu um horizonte que não podemos esquecer”, assinalou.

Para o cardeal Steiner, esse horizonte deve iluminar não apenas a relação da Igreja com o meio ambiente, mas também sua maneira de viver e anunciar o Evangelho. A questão ecológica, explicou, não pode ser reduzida à proteção da natureza, porque envolve também a dignidade humana, as relações sociais e o bem comum.

Nessa perspectiva, pediu atenção aos povos que vivem nas florestas e a seus modos de vida, conhecimentos e vínculos com o território: “Não podemos esquecer que, com a ecologia integral, devemos levar a sério os povos que vivem nas florestas”.

A dignidade humana e os novos desafios tecnológicos

O cardeal Steiner também relacionou a reflexão ecológica aos novos desafios apresentados pela inteligência artificial. A partir do ensinamento do Papa Leão XIV, afirmou que a Igreja é chamada a ampliar seu olhar e a se perguntar sobre as consequências das novas tecnologias para a dignidade da pessoa. “Com o Papa Leão, aprendemos também a olhar um pouco mais adiante”, declarou.

Para o cardeal Steiner, existe uma conexão entre a dignidade humana e a dignidade da natureza. Ambas as dimensões fazem parte de uma mesma responsabilidade diante da criação e do futuro da humanidade.

Esse olhar, afirmou, permite compreender que a crise ecológica não pode ser abordada de forma isolada dos demais desafios contemporâneos. A inteligência artificial, as transformações sociais e o cuidado da natureza fazem parte de um cenário que exige discernimento e diálogo.

“Cuidado e cultivo” diante de uma lógica de produção

O cardeal também retomou duas expressões utilizadas pelo Papa Francisco: cuidado e cultivo. Em sua opinião, ambas ajudam a superar um olhar centrado unicamente na produção e permitem recuperar a dimensão do bem comum. “Não se trata apenas da produção; trata-se de cuidar do bem comum”, explicou.

O cardeal ressaltou que o diálogo deve dar atenção especial a quem vive diretamente nas matas e florestas e cuja existência está estreitamente vinculada ao equilíbrio dos ecossistemas.

Ao final de sua intervenção, a autoridade eclesial recorreu à figura de São Francisco de Assis para expressar a relação entre fraternidade, humanidade e natureza. Recordou que o santo de Assis se dirigia a todos como irmãos e irmãs, expressão que, para o cardeal, continua tendo uma força particular diante da crise atual.

“São Francisco de Assis chamava todos e todas de fratelli e sorelle, irmãos e irmãs”, recordou. Essa fraternidade, disse, nasce do reconhecimento de uma origem comum e de uma responsabilidade partilhada. Por esse motivo, o cuidado da natureza e a defesa da dignidade de quem habita os territórios amazônicos não são questões separadas da missão da Igreja.

Inteligência artificial para cuidar da Amazônia

Durante as perguntas, o cardeal Steiner voltou ao tema da inteligência artificial e afirmou que essas ferramentas poderiam ter uma utilidade concreta para a Amazônia, especialmente no monitoramento e na proteção de seus territórios. “Seria muito bom para nossa região poder contar com a inteligência artificial especialmente a serviço do meio ambiente”, afirmou.

Essa possibilidade é especialmente significativa diante das dificuldades enfrentadas pelas comunidades amazônicas para ter acesso até mesmo a serviços básicos. O cardeal Steiner explicou que as grandes distâncias muitas vezes obrigam a viagens em pequenas embarcações ou barcos para chegar até elas e que, às vezes, os recursos disponíveis nem sequer são suficientes para cobrir o combustível. “Precisamos partilhar entre nós para poder realmente estar presentes nas comunidades que, às vezes, estão muito distantes”, assinalou.

Ao mesmo tempo, falou sobre as pressões sofridas pela Amazônia em razão da exploração madeireira, da pesca, da mineração e da expansão da produção de soja e da pecuária. Denunciou também a contaminação dos rios por mercúrio associada à atividade mineradora. “Sabemos que, pouco a pouco, a Amazônia está sendo devastada: há o interesse pela madeira, pela pesca e pela mineração, que contamina nossos rios com mercúrio, e há o avanço cada vez maior da soja e da pecuária”, afirmou.

Diante desse cenário, considerou que a inteligência artificial poderia ajudar a medir os impactos sobre o território e contribuir para sua preservação: “A inteligência artificial poderia nos ajudar a fazer medições e, ao mesmo tempo, a tentar preservar nossa região”.

As novas tecnologias a serviço da proteção ambiental e das comunidades

Para o cardeal Steiner, a preocupação com a Amazônia não se limita ao Brasil. Sua devastação pode ter consequências para todo o país e para outras regiões do mundo. Por isso, considera necessário colocar as novas tecnologias a serviço da proteção ambiental e das comunidades que habitam esses territórios.

O cardeal também abriu a possibilidade de utilizar a inteligência artificial na evangelização. Reconheceu que ainda existe certa resistência a essas ferramentas, mas recordou que elas já demonstraram sua capacidade de apoio em áreas como a medicina e a pesquisa. “Eu diria: por que não na evangelização?”, propôs.

Mencionou o desenvolvimento de vacinas durante a pandemia como exemplo da contribuição que as novas tecnologias podem oferecer à pesquisa científica: “Se pudermos receber essa ajuda, ela será muito bem-vinda para que possamos realmente atender melhor nossas comunidades, especialmente as comunidades indígenas, ribeirinhas e os povos da floresta”.

Fonte: ADN Celam

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