A próxima visita do Papa Leão XIV ao Peru desperta uma expectativa especial na Amazônia, uma região que ocupa um lugar significativo na história recente da Igreja peruana. Para dom David Martínez de Aguirre, vigário apostólico de Puerto Maldonado, o retorno de Robert Prevost, agora como sucessor de Pedro, também representa uma oportunidade para aprofundar o caminho sinodal iniciado durante o pontificado de Francisco.
Em uma entrevista para o programa “Leão XIV volta para casa”, do Arcebispado de Lima, o bispo recordou a experiência da visita do Papa Francisco a Puerto Maldonado e explicou que aquela jornada deixou aprendizados que podem servir para preparar o novo encontro com o Papa Leão XIV. A organização, a participação das comunidades e a articulação com as autoridades foram alguns deles, mas também a possibilidade de dinamizar a vida da Igreja.
Dom Martínez de Aguirre explicou que o Vicariato Apostólico de Puerto Maldonado compreende uma extensão territorial muito maior que o departamento de Madre de Dios. Inclui também a selva cusquenha, parte de Cusco e a população da província de La Convención e Quillabamba. A isso se somam as zonas do Baixo Urubamba, Alto Ucayali e Sepahua, cujos habitantes têm maior proximidade com Pucallpa.
A confirmação da visita papal já começou a mobilizar essas comunidades. “No bicentenário, já começaram a me ligar imediatamente: ‘Dom, como vamos fazer? Queremos ir a Pucallpa ou queremos ir a Cusco, por favor, Dom, vamos começar a nos organizar’”, relatou.
Visita que mobiliza a Igreja
O vigário apostólico recordou que, para a visita de Francisco, houve sete meses de preparação, enquanto agora restam menos de três meses. No entanto, considera que o tempo de organização não deve reduzir-se aos aspectos logísticos. “É uma oportunidade muito bonita para dinamizar a vida da Igreja, dos fiéis”, disse.
A experiência anterior permitiu às comunidades coordenar-se com as autoridades e preparar uma celebração que envolveu diferentes setores. Para Dom Martínez de Aguirre, aquela preparação foi especialmente significativa porque coincidiu com seus primeiros anos à frente do Vicariato Apostólico de Puerto Maldonado.
“É como uma prova, não é? É como dizer: ‘Vamos ver que capacidade temos de nos organizar e de convocar as pessoas’”, explicou. A partir dessa perspectiva, a visita do Pontífice pode converter-se novamente em uma oportunidade para que a Igreja e o país se organizem, recuperem a esperança e se disponham a escutar uma mensagem de paz, esperança e unidade.
“É uma oportunidade muito bonita que têm estas jurisdições e que temos todos como país, pois, para nos organizar, para nos entusiasmar e, sobretudo, para abrir o coração a essa mensagem de paz, de esperança e de unidade”, assinalou.
O Papa conhece a diversidade do Peru
Para o bispo de Puerto Maldonado, a próxima visita tem uma particularidade: o Papa Leão XIV conhece pessoalmente boa parte da realidade peruana. Antes de ser eleito Papa, Robert Prevost desenvolveu seu ministério em diferentes lugares do país e compartilhou com outros bispos a vida e as dificuldades da Igreja peruana.
Dom Martínez de Aguirre recordou que ambos foram nomeados bispos em um período próximo e compartilharam espaços na Conferência Episcopal. “Temos a grandíssima sorte de ter um Papa peruano”, disse.
Também ressaltou a proximidade que Prevost demonstrava durante aqueles anos: “Ele era um homem tremendamente atento; cada vez que era chamado por telefone para consultar alguma questão, ele sempre respondia”. Por isso, considera que o Papa Leão XIV conhece as diferentes realidades do país, desde a costa até a serra e a selva.
“Dom Robert Prevost conhece muito bem a realidade peruana, conhece muito bem a realidade de nossa Igreja, conhece muito bem a realidade das diferentes zonas do Peru, as diferentes regiões, selva, costa e serra, e a idiossincrasia em nosso país”, sustentou.
Esse conhecimento, a seu juízo, fará com que a visita tenha um caráter particular: “Ele nos tocará ali onde sabe que nos fará bem, poderíamos dizer onde nos dói, não é? Não, onde ele sabe que nos fará bem e sabe que é a palavra de que estamos precisando”.
“Cada Papa tem seu toque especial, Francisco tinha seu toque especial e o Papa Leão tem um toque especialíssimo para o Peru”, acrescentou.
De Puerto Maldonado ao caminho da sinodalidade
A memória da visita do Papa Francisco permite a Dom Martínez de Aguirre estabelecer uma conexão direta entre a Amazônia e o caminho sinodal da Igreja universal.
O vigário apostólico recordou que Puerto Maldonado foi o primeiro lugar de encontro de Francisco durante sua visita ao Peru. Ali, o Papa pronunciou uma frase que, para o bispo, adquire especial significado ao olhar o processo vivido durante os últimos anos: “Aqui começa o Sínodo da Amazônia”.
O bispo recordou que Francisco havia planteado anteriormente que a Amazônia poderia converter-se em um espaço de aprendizagem para a Igreja. Essa experiência posteriormente adquiriu uma dimensão universal.
“Posteriormente, ele fez com que o Sínodo da Amazônia fosse um banco de prova para a Igreja Universal. Depois do Sínodo da Amazônia, lançou este Sínodo da Sinodalidade”, explicou.
Para o vigário apostólico, existe uma continuidade entre ambos os processos. A sinodalidade aparece como uma recuperação de uma maneira de viver a Igreja que já estava presente em numerosas comunidades e experiências eclesiais. “O Sínodo da Sinodalidade não é a invenção de nada novo, é tentar recuperar o que há de mais genuíno na Igreja”, sustentou.
Em sua leitura, Francisco abriu um caminho que agora Leão XIV pode ajudar a aprofundar e estender para que a sinodalidade se converta em uma forma habitual de viver a Igreja. “Que o Papa Francisco e agora o Papa Leão o queiram implementar, o queiram generalizar e que seja nosso modo de ser Igreja”, assinalou.
A sinodalidade como modo de ser Igreja
Dom Martínez de Aguirre considera que a trajetória do Papa Leão XIV permite reconhecer nele um estilo de Igreja relacionado com a sinodalidade. Sua experiência como missionário, agostiniano, superior dos agostinianos, bispo em Chiclayo e posteriormente prefeito do Dicastério para os Bispos em Roma são, para o vigário apostólico, parte de um percurso marcado por essa maneira de caminhar com os outros.
“Nesse sentido, o Papa nos animará muito a marcar esse modo de ser, pois é nessa metodologia, nessa forma, que vamos encontrar também o mais genuíno da vida da Igreja do Evangelho”, disse.
A sinodalidade, nessa perspectiva, não se reduz a uma metodologia para reuniões ou processos pastorais. Trata-se de uma maneira de viver a comunidade eclesial a partir da comunhão e do caminhar conjunto.
Unidade e missão: duas chaves do pontificado de Leão XIV
Diante da pergunta sobre a mensagem que o Papa poderia dirigir aos sacerdotes e bispos do Peru, o vigário apostólico identificou duas dimensões que considera fundamentais na vida de Leão XIV: a unidade e a missão.
“Eu creio que na pessoa do Papa Leão há dois aspectos que o marcam e que são fundantes em sua pessoa. É um Papa agostiniano”, explicou. Martínez de Aguirre recordou que a Regra de Santo Agostinho coloca no centro a vida comunitária e a comunhão, elementos que, segundo ele, estão profundamente arraigados na espiritualidade do Papa. “E o Papa sempre nos chamará à unidade e, portanto, a caminhar juntos, caminhar unidos e muito de mãos dadas”.
A segunda dimensão é a missão. O bispo recordou que Robert Prevost decidiu desde jovem ser missionário, entendendo a missão como uma saída da própria terra e da própria comunidade para encontrar-se com o outro. “Porque missionários todos somos pelo batismo”, assinalou.
Mas, a seu juízo, o Papa Leão XIV viveu essa vocação de uma maneira particular: “O Papa Leão tem este acréscimo daquele que é capaz de sair, colocar-se em contraste e ir ao encontro do outro para anunciar uma boa notícia”.
Dom Martínez de Aguirre recordou que Prevost nasceu nos Estados Unidos e pediu para ser enviado como missionário ao Peru. Depois voltou aos Estados Unidos para assumir um serviço em sua província religiosa, mas retornou ao Peru e, ao concluir sua responsabilidade como superior dos agostinianos, voltou novamente à missão. “Este é um aspecto muito característico”, ressaltou.
Por isso, resumiu em dois verbos o horizonte que, segundo ele, Leão XIV pode propor à Igreja peruana: caminhar unidos e sair em missão. “Eu creio que essas duas palavras, diria, o Papa Leão vai nos animar à unidade e vai nos mover à missão, a essa Igreja em saída que quer chegar ao sofrimento, colocar uma esperança no sofrimento dos mais afastados”, sustentou.
Preparar a visita como experiência espiritual
Ao finalizar a entrevista, o vigário apostólico de Puerto Maldonado convidou a Igreja peruana a viver os meses prévios à visita como um tempo de preparação espiritual e renovação comunitária: “Parabéns, parabéns, ânimo, vamos todos nos pôr em marcha, a caminho”.
Pediu que a preparação ajude a dinamizar a vida dos grupos apostólicos, das paróquias, das congregações religiosas e das dioceses. “Que seja uma experiência, uma preparação, uma experiência espiritual que nos ajude a dinamizar a vida de nossos grupos apostólicos, de nossas paróquias, das congregações religiosas, das dioceses”, alentou.
E dirigiu uma mensagem a Cusco, Pucallpa, Lima e especialmente Chiclayo, animando-os a assumir a preparação com entusiasmo, mas sem perder de vista o sentido da visita: “Sigam em frente, sigam em frente, empenhem-se bem, pois têm um belo trabalho; vivam-no com entusiasmo, sem perder o norte, o objetivo, que é esta visita apostólica, que é um momento importante de espiritualidade”.
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