A sinodalidade não pode ser reduzida a mudanças organizacionais ou estruturais. Requer uma transformação interior que alcance as relações, a vida comunitária e as formas de participação na Igreja. Essa foi uma das principais reflexões da primeira transmissão da série “Diretrizes e Sínodo: Três conversões”, promovida pela equipe nacional de animação do Sínodo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
A iniciativa tem como objetivo favorecer a recepção do Documento Final da Assembleia Sinodal sobre a Sinodalidade nas Igrejas particulares e nos diferentes organismos do Povo de Deus no Brasil. Ao mesmo tempo, pretende ajudar as comunidades a aprofundar as orientações presentes nas novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2026-2032, especialmente em seu sexto capítulo, dedicado aos compromissos sinodais.
A série contempla três encontros para refletir sobre as conversões propostas pela caminhada sinodal: a conversão das relações, a conversão dos processos e a conversão dos vínculos. A primeira jornada concentrou-se nas relações como ponto de partida para renovar a comunhão, a participação e a corresponsabilidade de todos os batizados.
Conversão que começa no coração
Durante a jornada, o padre Douglas Alves Pontes explicou que a conversão proposta pelo Sínodo não deve ser entendida simplesmente como uma modificação de estruturas. Trata-se, antes de tudo, de um processo espiritual e pastoral que transforma a mente, o coração e a maneira concreta de viver a fé.
A partir da Sagrada Escritura, destacou que a conversão implica um movimento de ruptura com aquilo que se opõe ao projeto de Deus, um retorno a esse projeto e uma renovação permanente. Por isso, não constitui uma experiência pontual, mas uma caminhada que se estende por toda a vida.
Nessa perspectiva, a conversão sinodal implica reconhecer aquilo que precisa mudar e traduzir esse discernimento em decisões concretas. A transformação deve alcançar o modo de pensar, a linguagem, as atitudes em relação aos demais e a relação com Deus, com o próximo e com o mundo.
O padre Douglas sublinhou também que a caminhada sinodal tem uma dimensão espiritual e outra relacional. A primeira requer abertura à Palavra, oração comunitária, diálogo e discernimento; a segunda pressupõe superar dinâmicas de poder e reconhecer a dignidade comum que todos os batizados recebem pelo sacramento do Batismo.
As relações sustentam a vida da Igreja
A reflexão sobre a conversão das relações ficou a cargo de dom Janilson de Sá Santos, que apresentou esse processo à luz tanto do Documento Final do Sínodo quanto das novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2026-2032.
Como ponto de partida, recordou que o Documento Final afirma que as relações sustentam a vitalidade da Igreja e animam suas estruturas. Por isso, transformar as relações é uma condição fundamental para avançar também na conversão pastoral, na conversão dos processos e na conversão dos vínculos.
O chamado implica rever a forma como as pessoas se relacionam nas paróquias, dioceses, pastorais, movimentos e demais espaços eclesiais. A proposta é avançar rumo a comunidades abertas e acolhedoras, capazes de gerar espaços de diálogo, trabalho conjunto e discernimento.
Nesse sentido, dom Janilson apresentou Jesus como referência para uma nova maneira de se relacionar: escutar as pessoas, caminhar com elas, fazer perguntas, acompanhar, formar e enviar em missão. A Igreja, afirmou, é chamada a deixar-se interpelar pelo Espírito Santo e a discernir seus apelos em meio às realidades concretas.
Diante do individualismo, uma Igreja de comunhão
Um dos desafios apontados durante a reflexão foi o crescimento do individualismo e o enfraquecimento da dimensão comunitária. Diante dessa realidade, destacou-se a necessidade de fortalecer uma pastoral que gere vínculos e favoreça a colaboração e a corresponsabilidade.
A proposta sinodal busca que cada batizado possa reconhecer-se como discípulo missionário e protagonista da missão da Igreja. Isso implica ampliar concretamente a participação do Povo de Deus nos processos de discernimento e na tomada de decisões.
Os conselhos pastorais, tanto paroquiais quanto diocesanos e de outros âmbitos, foram apresentados como espaços privilegiados de diálogo, escuta e discernimento comunitário. Neles, as diferentes vozes podem apresentar propostas, dúvidas e perspectivas para buscar, juntas, caminhos que respondam às necessidades da missão evangelizadora.
A conversão também alcança o exercício da liderança. Quem coordena ou anima uma comunidade é chamado a escutar, integrar, acompanhar, ajudar a discernir e abrir novos caminhos à luz do Espírito Santo.
Reconhecer os dons dos leigos, das mulheres, dos jovens e de outros protagonistas
Outro aspecto abordado foi a necessidade de valorizar a vocação e a missão dos leigos e das leigas. A conversão das relações implica reconhecer seus dons e sua contribuição para a vida e a missão da Igreja, bem como avançar na implementação dos ministérios laicais.
A reflexão mencionou os ministérios instituídos de leitor, acólito e catequista, além da possibilidade de continuar discernindo outros ministérios que respondam às necessidades das comunidades. Para avançar nessa caminhada, considerou-se fundamental fortalecer também a formação.
A família, os jovens, as mulheres, as pessoas com deficiência, as pessoas idosas, os povos indígenas, a vida consagrada e os ministros ordenados foram igualmente apontados como sujeitos que devem ser escutados e valorizados no âmbito da ação evangelizadora.
A juventude recebeu atenção especial. Diante de olhares que podem apresentar os jovens a partir de suas carências ou dificuldades, propôs-se uma mudança de perspectiva baseada na escuta, no reconhecimento de sua diversidade e na abertura para aprender com suas experiências.
Também se insistiu na necessidade de ampliar a participação das mulheres e reconhecer seus dons e contribuições para a missão evangelizadora. As pessoas com deficiência, por sua vez, não devem ser consideradas apenas destinatárias da ação pastoral, mas protagonistas capazes de contribuir para a comunidade e para o anúncio do Evangelho.
Do discurso à prática
A jornada concluiu com um apelo para que a sinodalidade passe das palavras às práticas cotidianas. Para isso, foram propostos caminhos como cultivar uma espiritualidade de comunhão, fortalecer a escuta, formar para a sinodalidade, avaliar os processos pastorais e reorganizar a ação evangelizadora quando necessário.
Também se destacou a importância de criar ambientes eclesiais seguros, superar os abusos e o uso indevido da autoridade e promover a comunhão entre os diferentes carismas, vocações e ministérios. O cuidado com as relações, recordou-se, não deve ser entendido apenas como uma estratégia para melhorar a organização, mas como uma expressão concreta da maneira como Deus se revela.
A primeira transmissão da série deixou, assim, uma pergunta aberta às comunidades: como promover uma conversão sinodal concreta na realidade local? A resposta, segundo as reflexões compartilhadas, começa por rever as relações e reconhecer que a renovação das estruturas eclesiais só será possível quando houver também uma transformação pessoal e comunitária.
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