Uma mudança na formação sacerdotal: Adeus ao seminário como um bunker

Jorge Costadoat
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Por: Jorge Costadoat*

6 de maio de 2026

Há sinais significativos de reforma na formação do clero. Eles apontam para uma mudança genuína. A Igreja alemã está na vanguarda. A Ratio Nationalis Institutionis Sacerdotalis foi publicada —com duzentas páginas—, e descreve o que se espera da formação de ministros ordenados no futuro. O documento foi confirmado por Roma em 11 de março de 2026. Trata-se de um segundo golpe no mesmo prego: recentemente, o Grupo 4 do Sínodo sobre Sinodalidade promoveu diretrizes que seguem na mesma direção.

Falo de uma mudança porque o documento busca ir além de um modelo de formação centrado no seminário, entendido como um espaço fechado —conhecido como modelo “Tridentino”— que prevaleceu até agora, embora com algumas nuances. Para a Ratio, a formação é concebida como um processo relacional, comunitário e aberto que se desdobra em múltiplas relações e contextos. Fundamentalmente, os futuros sacerdotes devem ser formados no seio do Povo de Deus. As relações humanas serão o principal meio de moldar o tipo de ministros de que as comunidades precisam. A mediação do Evangelho deve nutrir essas interações.

O que já aconteceu em outras áreas começa a ocorrer neste campo. A Ratio alemã insiste numa compreensão histórica e contextual da pessoa humana e da Igreja, enfatizando a necessidade de estar atento aos sinais dos tempos e de proporcionar formação para discerni-los em cada época. Trata-se de formar sacerdotes como interlocutores do mundo contemporâneo, e não meramente como transmissores de conteúdo.

Entre os pontos-chave da Ratio alemã, três devem ser considerados. Todos convergem para o mesmo reconhecimento: a crise do modelo clerical não admite soluções superficiais. A Ratio reflete o impacto do escândalo gerado pelos abusos cometidos pelo clero. O documento começa reconhecendo falhas pessoais graves, bem como fatores sistêmicos, e a partir disso extrai conclusões formativas: propõe a formação de indivíduos humanamente maduros, capazes de autocrítica, sensíveis às vítimas e com habilidades para a prevenção.

Além disso, são necessários ministros que possam dialogar em uma cultura profundamente secularizada como a da Alemanha, onde, pela primeira vez, menos da metade da população pertence a uma denominação cristã. Os estudos teológicos devem responder a essa necessidade: as disciplinas também devem ser articuladas a partir de uma perspectiva pastoral e missionária, voltadas para a formação de indivíduos capazes de dialogar.

Dado que existem agentes pastorais leigos na Alemanha com funções estáveis e reconhecidas, a Ratio enfatiza a necessidade de cooperação entre os ministérios e de formação conjunta, estabelecendo referências comuns para os vários serviços pastorais.

O que restaria? O seminário como um bunker que protege contra um mundo percebido como ameaçador; o ministro apresentado como sagrado e superior aos demais em virtude de sua formação, vestimenta e distanciamento. A Ratio aponta para o modelo que melhor corresponde à Lumen Gentium, ou seja, a constituição conciliar que entende a Igreja como Povo de Deus, um povo sacerdotal que deriva essa natureza de Cristo, o sacerdote supremo e eterno, e que requer ministros ordenados que encarnem essa condição. Em outras palavras, a responsabilidade primordial pela formação desses ministros recai sobre o Povo de Deus, e este é também o âmbito fundamental para sua implementação.

O documento reconhece plenamente o enorme desafio que se apresenta. Os futuros sacerdotes precisam desenvolver a fortaleza necessária. Terão de ser formados ao se exporem em um contexto culturalmente desfavorável. Será isso possível? Cabe aos formadores, reitores, bispos, comunidades e leigos ajudar a moldar o tipo certo de pessoa. A recepção do Concílio Vaticano II dependerá, mais uma vez, disso.

 

*Jesuita chileno. Doctor en Teología por la Pontificia Universidad Gregoriana de Roma. Se ha desempeñado como Director del Centro Teológico Manuel Larraín (2004-2016). Ha sido Coordinador de la Comisión Teológica de la Compañía de Jesús en América Latina en dos períodos (2000-2004 y 2006-2013). Actualmente realiza labores de investigador adjunto de la Pontificia Universidad Católica de Chile y hace parte del Equipo de Reflexión Teológico Pastoral del Celam.

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