Contribuição bíblica para a sinodalidade eclesial

Contribuição bíblica para a sinodalidade eclesial
Compartilhar...

Por: Eduardo de la Serna*

29 de outubro de 2026

 

Uma coisa que, com as características próprias de cada escrito, fica clara no Novo Testamento é que quem conduz a Igreja é o Espírito Santo.

Um exemplo interessante é observar as duas vezes em que Paulo diz que “gostaria” de tal coisa, mas… os dons de Deus dizem outra coisa (1Cor 7,7; 14,5); Paulo não pretende fazer nem a sua vontade nem aquilo de que gostaria, mas está atento ao que o Espírito inspira (em ambos os casos, refere-se a carismas, isto é, dons da graça).

Outro elemento paulino é notar que tudo indica que, em cada comunidade por ele fundada, Paulo deixa que eles próprios estabeleçam a organização que consideram conveniente (não há uma hierarquia, como ocorrerá mais tarde, por exemplo, de presbíteros ou epískopos), há dirigentes, catequistas (Gl 6,6), aqueles que presidem (1Ts 5,12), profetas (1Cor 14,1). Nesse mesmo sentido, quando algo lhe foi confiado pela assembleia, como cuidar dos pobres (cf. Gl 2,10), deixa que cada comunidade o faça à sua maneira e aceita a proposta dos coríntios, acompanhada pelos macedônios, de organizar uma coleta (2Cor 8,1-4).

É sabido, além disso, que, juntamente com Barnabé, Paulo inicia um caminho totalmente novo: reconhecer os pagãos como membros plenos do Povo de Deus pelo batismo, sem exigir-lhes a circuncisão. Mas, quando viaja a Jerusalém e se reúne com aqueles que alguns consideram “as colunas”, Paulo debate com eles “para saber se tinha corrido em vão”. Não que Paulo fosse aceitar o que as colunas lhe dissessem, certamente, mas debater sobre o tema, o que fica selado em um aperto de mãos como sinal de comunhão (Gl 2,1-10; “não me acrescentaram nada”, destaca, 2,6).

Olhando para o livro dos Atos dos Apóstolos, é evidente que — em continuidade com o Evangelho de Lucas — o grande protagonista de toda a obra é o Espírito Santo. Um exemplo interessante é o que aconteceu depois da conversão de Cornélio. Tudo impedia a aceitação de um pagão na comunidade: o Antigo Testamento e as próprias palavras de Jesus pareciam apontar em uma única direção, mas Pedro soube reconhecer os sinais (e visões) que o conduziram, primeiro, à casa de Cornélio (apesar de um judeu não poder entrar na casa de pagãos; At 10,28), depois, a reconhecer a manifestação do Espírito e a administrar-lhes o batismo. Mais tarde, porém, Pedro teve de “defender” sua atitude em Jerusalém, onde também souberam ver os sinais do Espírito e começar a percorrer novos caminhos (é preciso observar que, diferentemente do que ocorre em Paulo em suas cartas, para Lucas e sua teologia, o primeiro que se dirige aos pagãos é Pedro). Estar atentos ao sopro do Espírito é a característica fundamental da Igreja dos Atos, como se vê também na Assembleia de Jerusalém… os religiosos afirmam que, sem circuncisão, não há salvação (15,1); como Paulo e Barnabé discutem com eles, decide-se ir a Jerusalém para tratar do assunto com os apóstolos e presbíteros (v. 2; repete-o nos vv. 5-6). Pedro intervém assinalando a ação do Espírito Santo (v. 8) e, então, toda a multidão fez silêncio para reconhecer os sinais proféticos (sinais e prodígios, v. 12) relatados por Barnabé e Paulo.

Sem dúvida, o Evangelho que destaca com maior clareza a importância do Espírito Santo é o Evangelho de João (inclusive, sendo o termo pneuma neutro, a passagem para o sujeito “paráclito” é masculina, o que lhe confere outra entidade pessoal). O Paráclito é enviado pelo Pai como este enviou o Filho, para continuar a obra diante da ausência dele, e dele se dizem coisas semelhantes às que se dizem de Jesus: estará sempre com a comunidade (14,16), é Espírito da verdade e não é recebido pelo “mundo”, ensinará e recordará o que Jesus pregou (14,26) e dará testemunho dele (15,26), como também o farão os discípulos. É enviado para convencer o mundo (no que se refere ao pecado, à justiça e ao juízo), guiando os discípulos para a verdade plena (16,7.13). É por isso que o Ressuscitado, em seu encontro com a comunidade reunida, lhes dá o “espírito santo” (20,22), com o qual poderão falar e agir como Jesus o fez (enviados; ver 14,12).

Não se pode concluir sem observar, no Apocalipse, as cartas às sete Igrejas, nas quais Jesus se dirige de modo particular a cada uma delas e que terminam com a mesma fórmula: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas” (Ap 2-3).

Uma “Igreja” que não escutasse o Espírito Santo seria uma mera instituição (não se pode negar que, na história da Igreja, isso aconteceu muitas vezes, e nada impede que continue acontecendo). É interessante observar o contraste entre duas atitudes de Pedro no Evangelho de Mateus: em uma delas, Jesus o felicita porque “isso não te foi revelado pela carne e pelo sangue, mas pelo meu Pai que está nos céus” (16,17), enquanto, na outra, o repreende exatamente pelo contrário: “Teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens!” (16,23). Por isso, em uma o chama de “pedra” e, na outra, de “escândalo”. A escuta daquilo que Deus quer é a chave, e nem sequer a pessoa de “Pedro” é a garantia. O Espírito é.

É disso que se trata ser Igreja sinodal, não de dizer que se é, mas de sê-lo realmente. “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas”.

 

*Eduardo de la Serna nasceu em Buenos Aires em 1955. Ordenado sacerdote em 1981, é atualmente pároco da Paróquia Jesus Bom Pastor em San Francisco Solano. Desde a sua fundação em 1986, é membro do grupo Sacerdotes pelos Pobres, que dá continuidade aos ensinamentos do Movimento Sacerdotes para o Terceiro Mundo. Contribuiu para o livro “Retirando os Pobres da Cruz: Cristologia da Libertação”, escrito em solidariedade a Jon Sobrino. É professor de Sagrada Escritura e possui diversas publicações acadêmicas e pastorais.

Baixe a reflexão


Compartilhar...

Enviar comentario

Su dirección de correo electrónico no será publicada.