“A identidade afrodescendente é um dom para a Igreja”: mulheres afrocatólicas tecem sinodalidade a partir da fé, da memória e da profecia

“A identidade afrodescendente é um dom para a Igreja”: mulheres afrocatólicas tecem sinodalidade a partir da fé, da memória e da profecia
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A riqueza cultural e espiritual dos povos afrodescendentes, a liderança das mulheres afrocatólicas e a construção de uma Igreja que reconheça plenamente a diversidade de seus povos foram os temas centrais do encontro virtual “Tecendo sinodalidade: o rosto afrofeminino da identidade, fé e profecia a partir da cultura e da diáspora afro-americana”, organizado pelo Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (Celam), pela Rede de Lideranças Afrodescendentes Católicas das Américas (Lacam) e pelo Grupo de Cultura Popular da Universidade Católica Argentina (UCA).

A atividade fez parte do Sonho Cultural do Celam e teve como propósito visibilizar a identidade, a missão e a trajetória da Lacam, além de gerar um espaço de reflexão sobre a contribuição das mulheres afrodescendentes para a missão evangelizadora da Igreja a partir de uma perspectiva sinodal, intercultural e de comunhão eclesial.

Rede nascida para visibilizar a voz das mulheres afrocatólicas

Após o momento inicial de oração, Jessica Clarence, da Nicarágua, tomou a palavra para apresentar o percurso da rede e partilhar as experiências que marcaram o caminhar das mulheres afrodescendentes católicas em distintos países do continente. Durante sua exposição, Clarence explicou que a Lacam nasce da necessidade de articular mulheres afrodescendentes católicas de diferentes países que compartilhavam desafios semelhantes relacionados com a invisibilização, o racismo e a falta de espaços para expressar suas experiências dentro da Igreja.

A rede quis consolidar-se como um espaço de encontro, formação, escuta e acompanhamento, onde as mulheres possam refletir juntas sobre sua identidade, sua fé e sua missão evangelizadora. Ao longo dos anos, o trabalho conjunto permitiu fortalecer vínculos entre mulheres de diferentes regiões e reconhecer que, apesar das diferenças culturais e nacionais, existem experiências comuns que atravessam as comunidades afrodescendentes do continente.

Nesse caminho, a identidade afrodescendente aparece como um elemento valioso e como uma experiência ligada à fé, à memória dos povos e à busca permanente de dignidade e justiça.

Fé, cultura e missão evangelizadora

Jessica Clarence compartilhou que as mulheres afrocatólicas são protagonistas ativas da vida da Igreja. A partir de suas comunidades, elas oferecem experiências de fé, liderança, serviço e compromisso com a transformação da realidade. A expositora sublinhou que a riqueza dos povos afrodescendentes constitui uma contribuição valiosa para toda a Igreja latino-americana e caribenha, especialmente em um momento em que a sinodalidade convida a escutar as vozes daqueles que historicamente permaneceram nas periferias. Nesse sentido, insistiu que a experiência afrodescendente faz parte de uma maneira de viver a fé enraizada na história, na memória e na resistência dos povos.

Um dos desafios assinalados durante o encontro foi a necessidade de avançar em processos autênticos de inculturação. Ao responder às perguntas dos participantes, Jessica partilhou sua experiência na Nicarágua e reconheceu que ainda existem dificuldades para que a espiritualidade afrodescendente seja plenamente compreendida dentro de alguns espaços eclesiais: “Infelizmente, faz-se muito folclore. Não se leva realmente tão a sério como deveria ser feito”.

A líder explicou que, em muitos lugares, ainda é difícil reconhecer que a cultura afrodescendente faz parte da identidade dos povos e não constitui um elemento externo ou acessório à experiência de fé. Recordou também experiências que conheceu em outros países da região, onde a pastoral afro conseguiu uma integração com a vida eclesial. Segundo afirmou, ainda há um longo caminho a percorrer para que as comunidades afrodescendentes possam expressar plenamente sua espiritualidade dentro das paróquias, dioceses e catedrais. “Permitem-se certos espaços, mas são o mínimo. Sabemos que há muito a trabalhar”, sustentou.

O papel das mulheres na construção de comunidades

Tanto Jessica Clarence como Tamara Bárbara manifestaram a importância de gerar espaços onde as mulheres possam expressar experiências que durante muito tempo permaneceram silenciadas. Tamara ressaltou que muitas vezes as pessoas acabam naturalizando situações de exclusão ou violência porque cresceram em contextos onde parece não haver alternativas. “Às vezes precisamos desses espaços para poder falar”, expressou.

A moderadora assinalou que o acompanhamento mútuo, a escuta e a construção de redes constituem ferramentas fundamentais para fortalecer as mulheres e ajudá-las a reconhecer sua própria dignidade.

Outro dos temas abordados durante o diálogo foi a persistência de formas contemporâneas de exploração que afetam especialmente mulheres pobres e racializadas. Jessica Clarence referiu-se a um caso conhecido recentemente no Brasil, relacionado a uma mulher que teria trabalhado durante décadas em condições de servidão dentro de uma família acomodada. “Continuam ocorrendo situações como essas, que são uma maneira de escravizar em nossos dias”, disse.

A líder lamentou que essas situações continuem ocorrendo até mesmo em contextos onde as pessoas participam ativamente da vida religiosa: “Muitas vezes, famílias católicas, que vão à igreja todos os domingos, escravizam outras mulheres em suas casas. Isso é terrível”, assinalou. Para as participantes, essas realidades mostram a necessidade de vincular a fé a um compromisso concreto com a dignidade humana e a justiça social.

Questionar os imaginários dominantes

O conversatório também abriu uma reflexão sobre a representação das pessoas afrodescendentes na catequese, na arte religiosa e na religiosidade popular. Os participantes levantaram interrogações sobre a maneira como historicamente se construíram imaginários religiosos marcados por modelos culturais predominantemente brancos, enquanto outras expressões permaneceram invisibilizadas.

Neste contexto, ressaltou-se que é preciso valorizar a diversidade cultural presente na Igreja e reconhecer a contribuição que as comunidades afrodescendentes deram à construção da fé popular latino-americana.

Tamara Bárbara recordou que, em vários países, existem experiências de celebrações afro com forte presença de símbolos, música e expressões culturais próprias, enquanto em outros contextos ainda custa incorporar esses elementos na vida litúrgica.

Sinodalidade: caminhar juntos a partir da diversidade

A sinodalidade foi o fio condutor de todo o encontro. Os participantes manifestaram que o chamado a caminhar juntos implica reconhecer a diversidade dos povos que compõem a Igreja e gerar espaços reais de participação.

Jessica Clarence dirigiu uma mensagem a bispos, sacerdotes e agentes pastorais que acompanham comunidades afrodescendentes, convidando-os a se aproximarem mais de suas realidades e a conhecerem sua riqueza cultural e espiritual: “Deixar-se guiar e deixar-se acompanhar, querer conhecer, querer partilhar com um povo que tem muita sede dessa proximidade”. E concluiu recordando que o horizonte deste caminho continua sendo uma Igreja onde todos possam caminhar juntos, reconhecendo a riqueza de suas diferenças: “Poder caminhar precisamente nesta Igreja, como nos convidou o Papa Francisco, a caminhar todos juntos de mãos dadas, caminhando sempre em sinodalidade”.

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