Como evoluiu a sinodalidade durante os pontificados de Francisco e Leão XIV? Esta é a pergunta abordada por uma análise comparativa publicada originalmente na Religión Digital, elaborada por Dumar Espinosa, com base no exame de 5.984 textos oficiais de ambos os pontífices.
O trabalho examina o uso do termo “sinodalidade” e seu desenvolvimento documental desde o início do pontificado de Francisco, em março de 2013, até setembro de 2026. O corpus reúne 5.367 textos do Papa Francisco e 617 do Papa Leão XIV, analisados segundo um mesmo procedimento para identificar a presença e a frequência do conceito.
Para além do número de vezes em que a palavra aparece, o estudo busca observar o lugar que a sinodalidade ocupa nos diferentes documentos, levando em conta seu gênero, seus destinatários e sua função no magistério pontifício.
Da abertura do processo à sua recepção
Segundo a análise, o pontificado de Francisco foi marcado pela construção e expansão de uma linguagem sinodal que, progressivamente, adquiriu um lugar central na reflexão sobre a Igreja. O texto recorda especialmente sua intervenção de 2015 por ocasião do 50º aniversário do Sínodo dos Bispos, quando apresentou a sinodalidade como uma dimensão constitutiva da Igreja.
Somaram-se a isso decisões institucionais, como a Constituição Apostólica Episcopalis communio e o processo sinodal iniciado em 2021, que envolveu as Igrejas particulares de diversas partes do mundo e culminou na XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos.
A análise sustenta que, com o Papa Leão XIV, a sinodalidade entra em uma etapa diferente. O atual pontífice recebe boa parte dessa caminhada já realizada e dá ênfase à sua recepção, implementação e continuidade, relacionando-a com questões como o governo da Igreja, a formação, a corresponsabilidade, a missão e a comunhão entre as Igrejas.
Comparação baseada em dados
Devido à diferente duração dos dois pontificados, o autor adverte que o número absoluto de documentos e de ocorrências do termo não permite, por si só, estabelecer uma comparação adequada. Por isso, o estudo utiliza taxas proporcionais e também compara os primeiros 500 dias de ambos os pontificados. De acordo com os dados apresentados, nesse período o Papa Leão XIV utilizou o termo “sinodalidade” em uma proporção maior de documentos do que Francisco durante seus primeiros 500 dias.
A análise assinala que, no caso do Papa Francisco, foram identificados sete documentos com a palavra, totalizando 13 ocorrências, enquanto nos primeiros 500 dias do Papa Leão XIV foram registrados 30 documentos com o termo e 64 ocorrências.
O autor adverte, contudo, que uma frequência maior não significa automaticamente maior profundidade teológica. Para interpretar o peso da sinodalidade, considera também o tipo de documento, seu destinatário e a função desempenhada pelo conceito.
Continuidades e novas ênfases
O estudo identifica vários elementos partilhados pelos dois pontificados. Entre eles estão a referência ao Concílio Vaticano II, a ação do Espírito Santo, a relação entre Povo de Deus, colegialidade e primado, a participação dos diferentes membros da Igreja e a vinculação entre sinodalidade e missão.
Também ressalta o caráter ecumênico dessa reflexão, especialmente pela relação entre sinodalidade e primado no diálogo com as Igrejas do Oriente.
Ao mesmo tempo, a análise identifica ênfases próprias de cada pontificado. Em Francisco, destacam-se a elaboração de uma “gramática” sinodal, sua incorporação ao funcionamento institucional da Igreja e a convocação de um processo de alcance mundial.
No caso do Papa Leão XIV, por sua vez, a análise aponta uma atenção maior à concretização da caminhada já percorrida, especialmente por meio de espaços de discernimento, formação, governo e corresponsabilidade. O estudo também relaciona esse desenvolvimento com a encíclica Magnifica humanitas e outros documentos do atual pontífice.
Etapa de recepção
Uma das principais teses da análise é que a passagem de Francisco a Leão XIV não pode ser entendida simplesmente como uma ruptura entre duas maneiras contrapostas de compreender a sinodalidade.
O artigo propõe falar, antes, de uma mudança de etapa: o Papa Francisco teria concentrado boa parte de seu pontificado em abrir, definir, institucionalizar e universalizar o processo, enquanto o Papa Leão XIV recebe essa caminhada e enfrenta o desafio de transformá-la em uma prática mais estável da vida eclesial.
A discussão já não se concentra unicamente em como convocar e desenvolver processos sinodais, mas também em como esses processos podem se traduzir em formas práticas de governo, formação, participação e missão.
A análise adverte ainda sobre alguns desafios dessa nova etapa: evitar que a sinodalidade fique reduzida a uma linguagem espiritual sem consequências institucionais, que a participação se limite a espaços consultivos ou que a busca pela comunhão seja interpretada como uniformidade.
Processo ainda aberto
O estudo conclui que a documentação disponível até setembro de 2026 permite identificar uma continuidade significativa entre os dois pontificados, juntamente com mudanças nas ênfases e na maneira de abordar o processo sinodal.
A recepção da sinodalidade, contudo, continua sendo um processo aberto. Seu desenvolvimento dependerá também de como for assumida nas Igrejas particulares, nos organismos de participação, na formação e nas estruturas de governo da Igreja.
O artigo de Dumar Espinosa, publicado originalmente na Religión Digital sob o título “A sinodalidade entre Francisco e Leão XIV: continuidade, diferenças, desenvolvimento e intensidade na trajetória documental de 2013 a 2026”, oferece, assim, uma leitura baseada em dados e documentos oficiais para se aproximar de uma das transformações eclesiais mais relevantes dos últimos anos.
Leia o artigo completo aqui: https://www.religiondigital.org/el_blog_de_dumar_espinosa/sinodalidad-francisco-leon-xiv-camino-sinodal_132_1467506.html
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