Igreja venezuelana avança na implementação da sinodalidade

Igreja venezuelana avança na implementação da sinodalidade
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A Igreja Católica na Venezuela atravessa uma fase de transição na implementação da sinodalidade, que demonstra progressos na participação comunitária, na formação pastoral e na renovação das estruturas eclesiais, embora ainda enfrente resistência interna, dificuldades estruturais e desafios para levar esse processo a todas as comunidades paroquiais do país.

Isso se reflete no relatório apresentado em 5 de maio de 2026 por José Antonio da Conceição Ferreira, Secretário-Geral da Conferência Episcopal Venezuelana, ao Cardeal Mario Grech, durante uma visita à Secretaria-Geral do Sínodo em Roma.

O documento descreve o estado atual da fase de implementação do Sínodo sobre a Sinodalidade nas dioceses venezuelanas e explica como as igrejas locais começaram a passar da reflexão teórica para experiências concretas de participação e corresponsabilidade pastoral.

Igreja em transição

O relatório indica que a Igreja venezuelana está passando por um processo gradual de transformação, caminhando da apropriação conceitual da sinodalidade para práticas pastorais inspiradas na escuta, no discernimento comunitário e na missão compartilhada.

Entre os principais avanços, vale destacar que 70% das dioceses já possuem planos pastorais diocesanos em execução ou revisão, enquanto 74,2% têm Conselhos Pastorais Diocesanos ativos, embora alguns ainda funcionem parcialmente.

Da mesma forma, numerosas dioceses têm promovido assembleias paroquiais, arquiprestes e diocesanas utilizando metodologias sinodais, especialmente a chamada “Conversa no Espírito”, uma ferramenta que se difundiu em encontros de formação e espaços de discernimento pastoral.

Foram também criadas Equipas Sinodais Diocesanas para a Animação Pastoral, e têm sido envidados esforços para integrar o processo sinodal com os anos jubilares e as celebrações eclesiais locais.

Segundo o relatório, o principal desafio é “passar do discurso para a experiência, dos eventos para os processos“, transformando mentalidades ainda marcadas pelo clericalismo e caminhando rumo a uma Igreja mais corresponsável e missionária.

Recepção do documento final do Sínodo

O estudo e a apropriação do documento final do Sínodo sobre a Sinodalidade tiveram uma recepção desigual nas diversas instâncias eclesiais.

Segundo o relatório, bispos, vigários pastorais e conselhos diocesanos demonstraram uma melhor receptividade ao texto, enquanto que, a nível paroquial, o processo está a progredir mais lentamente e muitas comunidades ainda não trabalharam formalmente nele.

No caso das pessoas leigas, o conhecimento do documento permanece limitado; no entanto, quando apresentado em contextos educacionais, geralmente desperta esperança e vontade de participar.

Para promover sua disseminação, as dioceses venezuelanas desenvolveram jornadas de formação com o clero, oficinas sobre diálogo no Espírito, apresentações em assembleias paroquiais e arquiprestes, publicações pastorais com resumos práticos, uso de emissoras de rádio diocesanas e plataformas virtuais de formação.

Novos estilos de liderança e participação

Uma das mudanças mais notáveis apontadas no relatório é a consolidação de novos estilos de liderança corresponsável dentro da Igreja.

Surgiram equipes pastorais, compostas por leigos, religiosos e sacerdotes, enquanto a participação de mulheres e fiéis não ordenados em responsabilidades pastorais e de coordenação está aumentando.

Atualmente, leigos e leigas estão assumindo tarefas em áreas como catequese, ministério da saúde, comunicação e obras de caridade, refletindo uma compreensão mais ampla da corresponsabilidade eclesial.

O relatório menciona ainda progressos na renovação das estruturas participativas, como a reativação dos conselhos pastorais dos arciprestes, a criação de conselhos económicos paroquiais com critérios de maior transparência e a articulação de paróquias vizinhas para trabalharem em conjunto.

Formação e renovação pastoral

A formação surge como um dos pilares centrais do processo sinodal na Venezuela.

Entre as iniciativas desenvolvidas, destacam-se retiros espirituais focados na escuta e no acompanhamento, dias permanentes de autoridade e serviço, diplomas em teologia para leigos em convênio com universidades, formação na doutrina social da Igreja e estudos bíblicos.

Escolas para catequistas, escolas de ministérios em chave sinodal e oficinas sobre diálogo no Espírito e espiritualidade inaciana também foram fortalecidas.

O relatório também destaca cursos online relacionados à comunicação na igreja, mídias sociais e até mesmo programas de treinamento em inteligência artificial voltados para comunicadores.

As plataformas digitais e os fóruns virtuais possibilitaram a expansão das oportunidades de formação, especialmente num contexto marcado por dificuldades económicas e geográficas.

Resistência e obstáculos

Apesar dos progressos, o documento identifica resistências e dificuldades significativas na consolidação da implementação da sinodalidade.

O principal obstáculo identificado é a resistência de setores do clero, onde persistem atitudes de apatia, ceticismo e medo de perder autoridade para modelos mais participativos.

O relatório alerta que muitos padres ainda não abraçaram internamente a mudança pastoral necessária e mantêm estruturas marcadas pelo clericalismo e pela lógica de “sempre foi feito assim”.

A isso se somam os problemas estruturais decorrentes da crise econômica e da migração, que levaram a uma perda constante de agentes pastoris qualificados e a um crescente descontentamento nas comunidades.

Grandes distâncias geográficas, insegurança, dificuldades de transporte e a falta de integração entre as iniciativas pastorais também limitam o desenvolvimento de processos sinodais mais robustos.

O documento também alerta para mal-entendidos a respeito da sinodalidade, percebida por alguns como um “jogo de poder” em vez de um caminho de discernimento espiritual comunitário.

O compromisso da Conferência Episcopal Venezuelana

A Conferência Episcopal Venezuelana colocou a implementação da sinodalidade no centro de seu plano trienal 2026-2029.

O objetivo geral do programa é apoiar as igrejas locais no fortalecimento do discernimento comunitário, da liderança corresponsável e das estruturas participativas, com o propósito de consolidar uma Igreja que se dedica à construção de uma sociedade fraterna.

Os objetivos específicos incluem a formação de agentes pastorais em metodologias de escuta e discernimento, a promoção da corresponsabilidade, a renovação das estruturas eclesiais e a promoção de espaços para o diálogo comunitário.

Este planejamento inclui a implementação de três grandes cursos de formação nacional sobre o documento final do Sínodo, o discernimento comunitário e a renovação das estruturas participativas, em parceria com a CEBITEPAL e a Universidade Católica Andrés Bello.

Além disso, o episcopado venezuelano decidiu que a avaliação nacional do processo sinodal, agendada para o segundo semestre de 2027, deverá coincidir com a III Assembleia Pastoral Nacional, evento contemplado pelo Concílio Plenário da Venezuela.

O relatório conclui que a Igreja venezuelana está progressivamente caminhando para uma maior experiência de sinodalidade, embora insista na necessidade de aprofundar a conversão pastoral, fortalecer a participação do Povo de Deus e levar esse processo especialmente às paróquias, movimentos, grupos apostólicos e setores periféricos.

Faça o download do documento aqui: https://www.synodresources.org/resources/synodality-implementation-in-venezuela/

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