{"id":18567,"date":"2026-05-25T10:12:18","date_gmt":"2026-05-25T15:12:18","guid":{"rendered":"https:\/\/observatoriosinodalidad.org\/?p=18567"},"modified":"2026-06-01T23:05:59","modified_gmt":"2026-06-02T04:05:59","slug":"a-sinodalidade-nao-pode-ser-automatizada-moises-sbardelotto-sobre-a-igreja-diante-da-inteligencia-artificial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/observatoriosinodalidad.org\/pt-br\/a-sinodalidade-nao-pode-ser-automatizada-moises-sbardelotto-sobre-a-igreja-diante-da-inteligencia-artificial\/","title":{"rendered":"\u201cA sinodalidade n\u00e3o pode ser automatizada\u201d: Mois\u00e9s Sbardelotto sobre a Igreja diante da intelig\u00eancia artificial"},"content":{"rendered":"<p>Em uma \u00e9poca de r\u00e1pida expans\u00e3o da intelig\u00eancia artificial e transforma\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es humanas na era digital, a Igreja enfrenta o desafio de discernir <strong><b>como viver a comunh\u00e3o, a escuta e a miss\u00e3o em novos contextos culturais e tecnol\u00f3gicos. <\/b><\/strong>A recente enc\u00edclica <strong><em><b><i>Magnifica Humanitas, do Papa Le\u00e3o XIV,<\/i><\/b><\/em><\/strong><strong><b>\u00a0abriu um amplo debate sobre a dignidade humana, o impacto dos algoritmos e a necessidade de uma \u00e9tica capaz de colocar a pessoa no centro do desenvolvimento tecnol\u00f3gico.<\/b><\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_18524\" aria-describedby=\"caption-attachment-18524\" style=\"width: 225px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-18524\" src=\"https:\/\/observatoriosinodalidad.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Moises-Sbardelotto-2-225x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/observatoriosinodalidad.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Moises-Sbardelotto-2-225x300.jpeg 225w, https:\/\/observatoriosinodalidad.org\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Moises-Sbardelotto-2-768x1024.jpeg 768w, 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figura de destaque na Am\u00e9rica Latina no campo da comunica\u00e7\u00e3o digital e da pastoral em ambientes digitais. <\/b><\/strong>Coordenador do Grupo de Reflex\u00e3o sobre Comunica\u00e7\u00e3o da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos Cat\u00f3licos do Brasil e membro do Grupo de Trabalho sobre Fronteiras Tecnol\u00f3gicas do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho, Sbardelotto reflete sobre os desafios que a intelig\u00eancia artificial imp\u00f5e \u00e0 sinodalidade, \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o eclesial e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma cultura do encontro em meio a plataformas, algoritmos e novas formas de intera\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Nesta entrevista, o pesquisador brasileiro alerta para os riscos da confian\u00e7a acr\u00edtica na tecnologia, mas tamb\u00e9m <strong><b>aponta as possibilidades de uma Igreja capaz de promover uma presen\u00e7a digital mais humana, dial\u00f3gica e prof\u00e9tica, inspirada na escuta, no discernimento comunit\u00e1rio e no cuidado com a casa comum.<\/b><\/strong><\/p>\n<h3><strong><b>Sinodalidade na era digital<\/b><\/strong><\/h3>\n<p><strong><b>Pergunta: \u00c0 luz da enc\u00edclica do Papa Le\u00e3o XIV sobre intelig\u00eancia artificial e humanidade, quais desafios voc\u00ea considera mais urgentes para a Igreja viver uma sinodalidade na cultura digital?<\/b><\/strong><\/p>\n<p><strong><b>Resposta: <\/b><\/strong>Um dos desafios mais urgentes para a comunidade eclesial em geral \u00e9 <strong><b>compreender que a cultura digital n\u00e3o \u00e9 um instrumento externo \u00e0 Igreja, mas um verdadeiro ambiente de exist\u00eancia e relacionamento.<\/b><\/strong>\u00a0Como afirma o Papa, \u201c<strong><b>O poder e a onipresen\u00e7a das tecnologias emergentes est\u00e3o entrela\u00e7ados no tecido da vida quotidiana, moldam os processos de tomada de decis\u00e3o e influenciam profundamente o imagin\u00e1rio coletivo: nunca antes a humanidade teve tanto poder sobre si mesma\u201d <\/b><\/strong>(<em><i>Magnifica Humanitas,<\/i><\/em>\u00a0n. 4). A tecnologia, continua ele, n\u00e3o \u00e9 um mal em si mesma, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o para os problemas humanos, nem \u00e9 neutra, porque \u00e9 produto daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam. E \u201c<strong><b>isto torna mais complexo avaliar o seu impacto e os seus efeitos a longo prazo sobre a dignidade das pessoas e o bem comum<\/b><\/strong>\u201d. Se, como afirma Le\u00e3o XIII, \u201c<strong><b>o bem comum, na esfera eclesial, assume a face de um estilo sinodal para a miss\u00e3o ao servi\u00e7o do Reino\u201d <\/b><\/strong>(MH 86), <strong><b>a sinodalidade exige muito mais do que uma presen\u00e7a institucional nas plataformas digitais. Exige uma capacidade eclesial de escuta, discernimento e corresponsabilidade dentro de uma ecologia da comunica\u00e7\u00e3o profundamente transformada por algoritmos e plataformas.<\/b><\/strong>\u00a0O risco \u00e9 reduzir a sinodalidade \u00e0 mera conectividade t\u00e9cnica ou participa\u00e7\u00e3o funcional. Mas <strong><b>a escuta sinodal implica uma verdadeira abertura \u00e0 alteridade, ao conflito, \u00e0 vulnerabilidade e ao encontro humano. <\/b><\/strong>Numa cultura marcada pela acelera\u00e7\u00e3o, pela efici\u00eancia e pela fragmenta\u00e7\u00e3o, a Igreja \u00e9 chamada a testemunhar outra l\u00f3gica: a da gra\u00e7a, da d\u00e1diva gratuita, do encontro, da comunh\u00e3o. Al\u00e9m disso, \u00e9 importante reconhecer que <strong><b>a cultura digital est\u00e1 profundamente ligada \u00e0 crise socioambiental da nossa \u201ccasa comum\u201d. A intelig\u00eancia artificial exige n\u00e3o s\u00f3 uma tarefa tecnol\u00f3gica, mas tamb\u00e9m uma \u201cecol\u00f3gica no sentido mais radical, porque desafia uma nova dimens\u00e3o da nossa casa comum\u201d <\/b><\/strong>(MH 110). Portanto,<strong><b>\u00a0a sinodalidade na era digital deve tamb\u00e9m integrar esta consci\u00eancia, ligando a escuta do clamor da terra ao clamor dos pobres.<\/b><\/strong><\/p>\n<h3><strong><b>O ambiente digital n\u00e3o \u00e9 um mundo paralelo ou puramente virtual<\/b><\/strong><\/h3>\n<p><strong><b>P: Voc\u00ea costuma dizer que \u201co virtual \u00e9 real\u201d. Num contexto de algoritmos e intelig\u00eancia artificial, como pode a Igreja fortalecer espa\u00e7os aut\u00eanticos de escuta, participa\u00e7\u00e3o e discernimento comunit\u00e1rio?<\/b><\/strong><\/p>\n<p><strong><b>R.: <\/b><\/strong>A verdade \u00e9 que n\u00e3o gosto do conceito de &#8220;virtual&#8221; como sin\u00f4nimo de digital. Quando digo que <strong><b>&#8220;o virtual \u00e9 real&#8221;, estou justamente tentando superar uma falsa oposi\u00e7\u00e3o entre presen\u00e7a e virtualidade.<\/b><\/strong>\u00a0Esta \u00faltima \u00e9 um conceito filos\u00f3fico muito mais complexo, que n\u00e3o estou em posi\u00e7\u00e3o de explorar aqui, mas n\u00e3o significa irrealidade, muito menos implica meramente respeito pela digitalidade. <strong><b>Em sua nova e primeira enc\u00edclica, Le\u00e3o XIII destaca uma declara\u00e7\u00e3o de Bento XIV que \u00e9 fundamental para esta reflex\u00e3o: o ambiente digital &#8220;n\u00e3o \u00e9 um mundo paralelo ou puramente virtual,<\/b><\/strong>\u00a0porque o que surge na internet torna-se parte da vida das pessoas&#8221; (MH 135). <strong><b>As experi\u00eancias digitais produzem efeitos concretos na vida humana: geram la\u00e7os, conflitos, comunidades, exclus\u00f5es, espiritualidades e buscas de sentido. <\/b><\/strong>Hoje, com a expans\u00e3o dos algoritmos e da IA, isso se torna ainda mais complexo, porque nossos relacionamentos agora s\u00e3o mediados por sistemas que organizam a visibilidade e o sil\u00eancio, bem como as formas de intera\u00e7\u00e3o. Portanto, <strong><b>a Igreja precisa fortalecer uma presen\u00e7a plena e aut\u00eantica de escuta e discernimento comunit\u00e1rio, para que as pessoas n\u00e3o sejam reduzidas a dados, perfis ou m\u00e9tricas de participa\u00e7\u00e3o. <\/b><\/strong>A sinodalidade digital n\u00e3o pode ser confundida com a mera circula\u00e7\u00e3o de opini\u00f5es religiosas online (pelo contr\u00e1rio, a suposta \u201cliberdade de express\u00e3o\u201d na esfera cat\u00f3lica muitas vezes se transforma em uma verdadeira \u201cca\u00e7a \u00e0s bruxas\u201d, inclusive contra o pr\u00f3prio Papa!). <strong><b>Uma Igreja sinodal busca promover processos de comunica\u00e7\u00e3o verdadeiramente dial\u00f3gicos, onde as diferen\u00e7as possam ser reconciliadas e onde a voz do outro n\u00e3o seja absorvida pela l\u00f3gica polarizadora das plataformas online.<\/b><\/strong>\u00a0<strong><b>A escuta sinodal, no ambiente digital, exige cuidado e consci\u00eancia cr\u00edtica das arquiteturas algor\u00edtmicas <\/b><\/strong>que tendem a refor\u00e7ar apenas o que confirma as nossas pr\u00f3prias vis\u00f5es de mundo \u2014ou, pior, as dos seus arquitetos e atores privados, que geralmente procuram apenas maximizar os seus lucros, atraindo constantemente a nossa aten\u00e7\u00e3o e extraindo os nossos dados\u2013. Mas mesmo no meio de tudo isto, afirma o Papa, <strong><b>existe \u201cuma possibilidade luminosa: a de construirmos juntos, transformando a diversidade num recurso e fazendo da escuta e do di\u00e1logo o terreno comum onde se cultivam a justi\u00e7a e a fraternidade\u201d <\/b><\/strong>(MH 10).<\/p>\n<h3><strong><b>\u201cA sinodalidade n\u00e3o pode ser automatizada\u201d<\/b><\/strong><\/h3>\n<p><strong><b>P: De que forma a intelig\u00eancia artificial est\u00e1 transformando a comunica\u00e7\u00e3o eclesial e quais os riscos de que a l\u00f3gica tecnol\u00f3gica acabe por enfraquecer a dimens\u00e3o humana e pastoral da sinodalidade?<\/b><\/strong><\/p>\n<p><strong><b>A: <\/b><\/strong>A IA j\u00e1 est\u00e1 transformando a comunica\u00e7\u00e3o eclesial porque altera n\u00e3o apenas as ferramentas de comunica\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m a din\u00e2mica da constru\u00e7\u00e3o de significado e do estabelecimento de rela\u00e7\u00f5es. Hoje, j\u00e1 convivemos com sistemas capazes de gerar textos, imagens, \u00e1udio e experi\u00eancias comunicativas que antes eram consideradas exclusivamente humanas. Esse fen\u00f4meno constitui uma verdadeira \u201cdupla virada lingu\u00edstica\u201d, em que as m\u00e1quinas n\u00e3o apenas transmitem informa\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m moldam o bem comum e mediam nossa rela\u00e7\u00e3o com o meio ambiente. Isso abre importantes possibilidades para a evangeliza\u00e7\u00e3o e a circula\u00e7\u00e3o do conhecimento teol\u00f3gico e pastoral. Mas tamb\u00e9m existem riscos significativos. Um deles, talvez o mais profundo de uma perspectiva teol\u00f3gica, \u00e9 o que o Papa Le\u00e3o XIV, em sua primeira mensagem para o Dia Mundial das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais, chamou <strong><b>de sacraliza\u00e7\u00e3o da IA: a tend\u00eancia de elev\u00e1-la ao status de \u201camigo onisciente, arquivo de toda a mem\u00f3ria e or\u00e1culo de todo o conselho\u201d. O que o Papa aponta com perspic\u00e1cia \u00e9 que esses pap\u00e9is \u2014onisci\u00eancia, mem\u00f3ria total e sabedoria perfeita\u2014 foram historicamente reservados pela tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica e teol\u00f3gica \u00e0 media\u00e7\u00e3o divina. <\/b><\/strong>Transferir essas expectativas sagradas para um sistema que, por defini\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode cumpri-las, representa um profundo empobrecimento espiritual na vida pastoral. <strong><b>Outro risco \u00e9 que a l\u00f3gica tecnol\u00f3gica \u2014baseada na automa\u00e7\u00e3o, otimiza\u00e7\u00e3o e efici\u00eancia<\/b><\/strong>\u2014 acabe enfraquecendo dimens\u00f5es essenciais da experi\u00eancia eclesial, como a escuta e o acompanhamento humano, que exigem \u201cpassar tempo\u201d com os outros. A sinodalidade, portanto, <strong><b>n\u00e3o pode ser automatizada. Um algoritmo pode organizar informa\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o pode realizar o discernimento espiritual. <\/b><\/strong>O grande desafio \u00e9 impedir que a Igreja adote uma <strong><b>\u201cconfian\u00e7a ingenuamente acr\u00edtica<\/b><\/strong>\u201d, como o Papa a chama, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 racionalidade tecnocr\u00e1tica dominante, reduzindo a comunica\u00e7\u00e3o pastoral a estrat\u00e9gias de visibilidade e performance digital. Diversos estudos j\u00e1 documentam consequ\u00eancias preocupantes para nossas capacidades cognitivas, emocionais e comunicativas: <strong><b>a IA, de fato, pode se apresentar como uma intelig\u00eancia artificial <\/b><\/strong><strong><em><b><i>que degenera <\/i><\/b><\/em><\/strong><strong><b>nossos dons e talentos. <\/b><\/strong>Ao entregarmos nossas fun\u00e7\u00f5es mentais e imagina\u00e7\u00e3o \u00e0s m\u00e1quinas, tornamo-nos \u201cmeros consumidores passivos de pensamentos impensados, de produtos an\u00f4nimos, sem autoria ou amor\u201d, como diz Le\u00e3o XIV. <strong><b>Sem autoria, n\u00e3o h\u00e1 corresponsabilidade pelo conte\u00fado; sem amor, nenhum afeto guia a escolha das palavras, nenhum cuidado molda o argumento. <\/b><\/strong>Para uma comunica\u00e7\u00e3o eclesial que aspira a ser encarnada e prof\u00e9tica, esse risco \u00e9 significativo. <strong><b>A comunica\u00e7\u00e3o eclesial precisa continuar sendo profundamente humana e <\/b><\/strong><strong><em><b><i>humanizadora,<\/i><\/b><\/em><\/strong><strong><b>\u00a0mesmo em ambientes digitais e mediados por intelig\u00eancia artificial. <\/b><\/strong>E em sua primeira enc\u00edclica, Le\u00e3o XIII \u00e9 muito claro: \u201c<strong><b>As comunidades crist\u00e3s tamb\u00e9m devem se comprometer com a comunica\u00e7\u00e3o transparente e com a busca honesta dos fatos. Infelizmente, nem sempre foi assim<\/b><\/strong>\u201d (MH 138). Portanto, o Papa prop\u00f5e um exame de consci\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s palavras que usamos: \u201c<strong><b>Devemos dizer \u2018n\u00e3o\u2019 \u00e0 guerra de palavras e imagens; devemos rejeitar o paradigma da guerra\u201d <\/b><\/strong>(MH 214). Como ant\u00eddoto teol\u00f3gico e pastoral a esse risco, a Igreja deve recuperar urgentemente uma <em><i>comunica\u00e7\u00e3o cordial,<\/i><\/em>\u00a0diretamente ligada \u00e0 profundidade do cora\u00e7\u00e3o, ao afeto e ao testemunho encarnado, mesmo diante de \u201cverdades inc\u00f4modas sobre n\u00f3s mesmos\u201d, como diz o Papa.<\/p>\n<h3><strong><b>Sinodalidade versus fragmenta\u00e7\u00e3o<\/b><\/strong><\/h3>\n<p><strong><b>P: O Papa Francisco e agora o Papa Le\u00e3o XIII enfatizam a import\u00e2ncia da comunica\u00e7\u00e3o que constr\u00f3i a comunh\u00e3o. Como a Igreja pode impedir que a intelig\u00eancia artificial aprofunde a polariza\u00e7\u00e3o, a desinforma\u00e7\u00e3o ou as \u201cbolhas digitais\u201d dentro das comunidades?<\/b><\/strong><\/p>\n<p><strong><b>A: <\/b><\/strong>\u00c9 necess\u00e1rio compreender criticamente como funcionam as din\u00e2micas algor\u00edtmicas contempor\u00e2neas e <strong><b>reconhecer que o risco das \u201cbolhas digitais\u201d n\u00e3o \u00e9 apenas externo \u00e0s comunidades eclesiais, mas tamb\u00e9m interno a elas.<\/b><\/strong>\u00a0Os algoritmos tendem a mostrar a cada pessoa conte\u00fado que confirma o que ela j\u00e1 pensa, refor\u00e7ando identidades fechadas e enfraquecendo a capacidade de lidar com a diferen\u00e7a. Pior ainda, <strong><b>ao otimizar a intera\u00e7\u00e3o personalizada com base em dados acumulados sobre cada usu\u00e1rio, esses sistemas se tornam \u201carquitetos ocultos de estados emocionais\u201d, como alerta o Papa Le\u00e3o XIII, moldando nossa intimidade sem que tenhamos consci\u00eancia disso. <\/b><\/strong>Em sua mensagem sobre a comunica\u00e7\u00e3o, o Papa descreve esse fen\u00f4meno com uma imagem memor\u00e1vel: <strong><b>a IA constr\u00f3i um \u201cmundo de espelhos, onde tudo \u00e9 feito \u00e0 nossa imagem e semelhan\u00e7a<\/b><\/strong>\u201d. Ao contr\u00e1rio da verdadeira alteridade, os sistemas algor\u00edtmicos n\u00e3o nos apresentam o outro, mas sim um reflexo distorcido de n\u00f3s mesmos. <strong><b>Assim como em <\/b><\/strong><strong><em><b><i>Alice Atrav\u00e9s do Espelho<\/i><\/b><\/em><\/strong>, de Lewis Carroll, o espelho digital n\u00e3o se limita a reproduzir a realidade: ele a molda, a reconfigura e at\u00e9 a reconstr\u00f3i segundo uma l\u00f3gica que n\u00e3o \u00e9 nem infantil nem l\u00fadica, mas sim econ\u00f4mica, financeira e ideol\u00f3gica. A polariza\u00e7\u00e3o digital n\u00e3o \u00e9 apenas um problema de informa\u00e7\u00e3o ou conte\u00fado, mas principalmente um problema de ecologias de comunica\u00e7\u00e3o inteiras, estruturadas para favorecer a rea\u00e7\u00e3o imediata, o conflito e a simplifica\u00e7\u00e3o. O risco \u00e9 confundir o espelho com a janela e o reflexo com a realidade. Na Igreja, isso pode fomentar comunidades digitalmente homog\u00eaneas, onde circula apenas o que confirma uma vis\u00e3o particular da f\u00e9, igrejas paralelas onde a voz e o rosto do outro e do diferente s\u00e3o simplesmente ignorados ou silenciados. <strong><b>Em sua enc\u00edclica, Le\u00e3o XIII reconhece a realidade da \u201ccomunica\u00e7\u00e3o impulsiva, da ret\u00f3rica agressiva e das din\u00e2micas de poder que caracterizam nosso tempo\u201d e, em resposta, convoca a \u201cpromover o di\u00e1logo com todos, inclusive com aqueles interlocutores considerados mais \u2018desconfort\u00e1veis\u2019 [\u2026] usando a humildade e a paci\u00eancia em sua plenitude\u201d <\/b><\/strong>(MH 224). <strong><b>A sinodalidade tamb\u00e9m pode oferecer uma contribui\u00e7\u00e3o fundamental precisamente porque prop\u00f5e e constr\u00f3i uma cultura de encontro que cultiva deliberadamente a diferen\u00e7a. <\/b><\/strong>Isso implica tamb\u00e9m exigir que os algoritmos sejam transparentes: <strong><b>que a autoria do conte\u00fado seja evidente e as fontes rastre\u00e1veis, para evitar que sejam reduzidos a uma \u00fanica voz ou a uma \u00fanica forma de pensar, em detrimento da pluralidade de perspectivas que a sinodalidade busca cultivar. <\/b><\/strong>Portanto, como argumenta Le\u00e3o XIII, ningu\u00e9m pode enfrentar sozinho o desafio de governar a IA, mas \u00e9 necess\u00e1rio criar mecanismos para proteger contra o controle do oligop\u00f3lio dos sistemas algor\u00edtmicos. Os legisladores nacionais e os \u00f3rg\u00e3os reguladores supranacionais, em particular, devem assegurar o respeito \u00e0 dignidade humana, inclusive por meio de uma &#8220;regula\u00e7\u00e3o adequada&#8221;, como defende o Papa.<\/p>\n<h3><strong><b>Dignidade humana, bem comum e cuidado com nossa casa comum<\/b><\/strong><\/h3>\n<p><strong><b>P: Com base em sua reflex\u00e3o sobre a cultura digital, quais crit\u00e9rios \u00e9ticos devem orientar o uso de ferramentas de intelig\u00eancia artificial pela m\u00eddia cat\u00f3lica, agentes pastorais e comunicadores eclesiais?<\/b><\/strong><\/p>\n<p>Acredito que os principais crit\u00e9rios \u00e9ticos e digitais da Igreja devem ser <strong><b>a tr\u00edade de seu pr\u00f3prio ensinamento social: <\/b><\/strong><strong><em><b><i>dignidade humana <\/i><\/b><\/em><\/strong><strong><b>(infinita!), <\/b><\/strong><strong><em><b><i>bem comum <\/i><\/b><\/em><\/strong><strong><b>e <\/b><\/strong><strong><em><b><i>cuidado com a nossa casa comum.<\/i><\/b><\/em><\/strong><strong><b>\u00a0<\/b><\/strong>A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas o que a tecnologia nos permite fazer, mas que tipo de humanidade e que tipo de sociedade estamos ajudando a construir por meio de sua ado\u00e7\u00e3o. A IA, como qualquer tecnologia, nunca \u00e9 neutra. Ela incorpora vis\u00f5es de mundo, interesses econ\u00f4micos, vieses culturais e estruturas de poder. Al\u00e9m disso, <strong><b>as desigualdades digitais reproduzem e amplificam desigualdades hist\u00f3ricas j\u00e1 presentes em nossas sociedades latino-americanas. <\/b><\/strong>As periferias sociais e geogr\u00e1ficas muitas vezes participam meramente como consumidoras (ou mesmo <em><i>cobaias<\/i><\/em>) de tecnologias e sistemas desenvolvidos em outros contextos culturais e econ\u00f4micos, sem participa\u00e7\u00e3o genu\u00edna em seus processos regulat\u00f3rios e de governan\u00e7a. Portanto, <strong><b>sua a\u00e7\u00e3o pastoral exige discernimento cr\u00edtico.<\/b><\/strong>\u00a0A esse respeito, <strong><b>vale lembrar que a pr\u00f3pria Igreja j\u00e1 assumiu compromissos concretos ao assinar o <\/b><\/strong><strong><em><b><i>Apelo de Roma por uma \u00c9tica da IA,<\/i><\/b><\/em><\/strong>\u00a0juntamente com empresas de tecnologia, institui\u00e7\u00f5es governamentais e civis e l\u00edderes das principais religi\u00f5es do mundo. Esse documento articula <strong><b>seis princ\u00edpios que tamb\u00e9m podem ser aplicados \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o da Igreja: transpar\u00eancia no uso de sistemas de IA; inclus\u00e3o de todas as pessoas nos processos digitais da Igreja; responsabilidade daqueles que adotam tais sistemas; imparcialidade, para evitar preconceitos e discrimina\u00e7\u00e3o e salvaguardar a dignidade de cada pessoa; confiabilidade, para prevenir desvios imprevistos; e seguran\u00e7a e respeito \u00e0 privacidade das pessoas. <\/b><\/strong>A esses princ\u00edpios, eu acrescentaria um crit\u00e9rio que me parece essencial na perspectiva da \u00e9tica crist\u00e3 contempor\u00e2nea: <strong><b>a aten\u00e7\u00e3o aos <\/b><\/strong><strong><em><b><i>impactos socioambientais da digitaliza\u00e7\u00e3o.<\/i><\/b><\/em><\/strong><strong><b>\u00a0<\/b><\/strong>Como nos lembra o Papa Francisco na <em><i>Laudato si&#8217;,<\/i><\/em>\u00a0<strong><b>n\u00e3o existem duas crises separadas, uma ambiental e outra social, mas sim uma \u00fanica crise socioambiental. <\/b><\/strong>A digitaliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m tem impactos desiguais, porque o \u00f4nus ecol\u00f3gico e econ\u00f4mico da IA afeta desproporcionalmente as popula\u00e7\u00f5es e os territ\u00f3rios mais pobres e vulner\u00e1veis. <strong><b>O ambiente digital torna ainda mais evidente o que Francisco reiterava constantemente: que <\/b><\/strong><strong><em><b><i>tudo no mundo est\u00e1 intimamente conectado.<\/i><\/b><\/em><\/strong><strong><b>\u00a0<\/b><\/strong>Por vezes, falamos da \u201cnuvem\u201d como se fosse algo imaterial, mas <strong><b>a IA possui uma forte materialidade ecol\u00f3gica: consumo de energia, extra\u00e7\u00e3o mineral, explora\u00e7\u00e3o laboral e concentra\u00e7\u00e3o de poder tecnol\u00f3gico. <\/b><\/strong>Desta perspectiva, <strong><b>todo discernimento \u00e9tico deve avaliar se o desenvolvimento tecnol\u00f3gico protege ou degrada o \u201ch\u00famus comum\u201d da nossa \u201ccasa comum\u201d: <\/b><\/strong>esse alicerce biol\u00f3gico, mineral, energ\u00e9tico e humano partilhado sobre o qual a IA se assenta e que nos liga inextricavelmente a toda a cria\u00e7\u00e3o. O que importa \u00e9 que estes princ\u00edpios n\u00e3o sejam meramente declarativos, mas que orientem concretamente as decis\u00f5es editoriais, educativas e pastorais dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e dos agentes da Igreja.<\/p>\n<h3><strong>A sinodalidade \u00e9 o testemunho que a Igreja pode oferecer ao mundo digital de hoje<\/strong><\/h3>\n<p><strong><b>P: Pensando no futuro da evangeliza\u00e7\u00e3o, voc\u00ea acredita que a sinodalidade pode ajudar a Igreja n\u00e3o apenas a &#8220;usar&#8221; a intelig\u00eancia artificial, mas tamb\u00e9m a propor uma perspectiva cr\u00edtica e humanizadora sobre o poder tecnol\u00f3gico global?<\/b><\/strong><\/p>\n<p><strong><b>A: Sim, porque a quest\u00e3o decisiva hoje n\u00e3o \u00e9 meramente tecnol\u00f3gica, mas antropol\u00f3gica, cultural e espiritual. <\/b><\/strong>O que significa ser humano em uma sociedade cada vez mais automatizada? Que tipo de rela\u00e7\u00f5es queremos construir? Que lugar damos \u00e0 alteridade? <strong><b>A sinodalidade oferece uma resposta importante porque desloca o foco do indiv\u00edduo isolado para a relacionalidade. <\/b><\/strong>Nesse sentido, acredito que <strong><b>a Igreja pode contribuir defendendo e propondo o que gosto de chamar de <\/b><\/strong><strong><em><b><i>humanismo digital integral<\/i><\/b><\/em><\/strong><strong><b>: uma vis\u00e3o do mundo e da realidade que n\u00e3o \u00e9 \u201cantropoc\u00eantrica\u201d de forma isolada, mas que compreende os seres humanos dentro de suas <\/b><\/strong><strong><em><b><i>redes de rela\u00e7\u00f5es<\/i><\/b><\/em><\/strong><strong><b>\u00a0\u2014com outras pessoas, com as tecnologias e <\/b><\/strong>com a comunidade de seres e elementos da nossa casa comum\u2014 superando tanto o individualismo quanto o reducionismo tecnocr\u00e1tico. <strong><b>A sinodalidade tamb\u00e9m nos lembra de algo que \u00e0s vezes esquecemos: a inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica nunca determina tiranicamente as pr\u00e1ticas sociais. <\/b><\/strong>Ela sempre se desdobra por meio de complexos processos de <em><i>reinven\u00e7\u00e3o social,<\/i><\/em>\u00a0baseados no que diversas culturas e comunidades decidem fazer com as tecnologias \u2014e tamb\u00e9m para al\u00e9m delas\u2013. <strong><b>Isso \u00e9 particularmente importante na Am\u00e9rica Latina, onde as culturas populares possuem suas pr\u00f3prias formas de relacionamento e mem\u00f3ria que n\u00e3o podem ser reduzidas \u00e0 l\u00f3gica homog\u00eanea das plataformas globais. <\/b><\/strong>E isso come\u00e7a com a forma\u00e7\u00e3o e a educa\u00e7\u00e3o. Como o pr\u00f3prio Le\u00e3o XIV apontou, assim como a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial exigiu um n\u00edvel m\u00ednimo de alfabetiza\u00e7\u00e3o para que as pessoas pudessem responder \u00e0s inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas de seu tempo, tamb\u00e9m a revolu\u00e7\u00e3o digital exige alfabetiza\u00e7\u00e3o digital com fundamentos human\u00edsticos e culturais. A Igreja, com sua vasta rede de institui\u00e7\u00f5es educacionais \u2014de escolas e semin\u00e1rios a universidades e centros de pesquisa\u2014 est\u00e1 em posi\u00e7\u00e3o \u00fanica para empreender essa tarefa em todo o mundo, e particularmente em nosso continente: formar pessoas com compet\u00eancia t\u00e9cnica, esp\u00edrito cr\u00edtico e vis\u00e3o human\u00edstica. <strong><b>Por isso, Le\u00e3o XIII tamb\u00e9m fala da necessidade de uma \u201cecologia da comunica\u00e7\u00e3o\u201d, que \u00e9 tamb\u00e9m sinodal, envolvendo a esfera das pol\u00edticas p\u00fablicas, a fim de estabelecer regras e crit\u00e9rios comuns; a esfera social e cultural, a fim de fortalecer organismos intermedi\u00e1rios como o jornalismo s\u00e9rio; a esfera das escolas e das fam\u00edlias, para construir uma nova consci\u00eancia educativa; e a esfera das universidades, para cultivar a capacidade de conectar e fundir saberes a fim de interpretar a complexidade (cf. MH 137).<\/b><\/strong>\u00a0Em suma, diante de uma l\u00f3gica tecnocr\u00e1tica que tende a quantificar toda a experi\u00eancia humana, <strong><b>a sinodalidade nos lembra que a vida humana \u00e9 encontro e escuta, comunh\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o. E talvez este seja um dos testemunhos mais importantes que a Igreja pode oferecer hoje ao mundo digital.<\/b><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em uma \u00e9poca de r\u00e1pida expans\u00e3o da intelig\u00eancia artificial e transforma\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es humanas na era digital, a Igreja enfrenta o desafio de discernir como viver a comunh\u00e3o, a escuta&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":18519,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40,43],"tags":[328,243],"class_list":["post-18567","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas-pt-br","category-noticias-pt-br","tag-magnifica-humanitas","tag-papa-leon-xiv-pt-br"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO Premium plugin v27.7 (Yoast SEO v27.7) - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-premium-wordpress\/ -->\n<title>\u201cA sinodalidade n\u00e3o pode ser automatizada\u201d: Mois\u00e9s Sbardelotto sobre a Igreja diante da intelig\u00eancia artificial - Observatorio Latinoamericano de la Sinodalidad<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Em uma \u00e9poca de r\u00e1pida expans\u00e3o da intelig\u00eancia artificial e transforma\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es humanas na era digital, a Igreja enfrenta o desafio de discernir como viver a comunh\u00e3o, a escuta e a miss\u00e3o em novos contextos culturais e tecnol\u00f3gicos. 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