Por: Juan Manuel Hurtado López*
18 de setembro de 2025
Aprender a escutar é algo que requer muito tempo. Significa parar no ritmo vertiginoso das atividades, esforços e ruídos que povoam nossa vida cotidiana. Com as redes sociais, isso se tornou mais difícil. A velocidade das imagens e dos sons não nos dá respiro para ouvir. O primeiro passo, então, é parar, fazer silêncio e depois escutar.
No Êxodo, esse ato de escutar é descrito em referência a Deus, “que escuta o clamor do seu povo” (Êx 3,7). Depois, será Moisés quem escutará Deus falando da sarça ardente no deserto (Êx 3,11-4,17). Mas, para isso, é preciso caminhar muito pelo deserto, muita solidão, muito calor, fome e perigos. Ou seja, são necessárias certas condições para a escuta.
Depois, vimos testemunhos de escuta nos profetas como Isaías, Jeremias, Amós. Testemunhos dos juízes, de são José e da Virgem Maria. E de Jesus de Nazaré, que sempre se deixou levar pela voz do Espírito de seu Pai. Mas também vimos testemunhos fortes de hoje, como Charles de Foucauld, Hélder Câmara, Mons. Óscar Romero, Martin Luther King.
Nesse contexto da escuta, há três anos começamos a fazer esse exercício. Somos uma pequena diocese, Ciudad Guzmán, no oeste do México, com apenas 450.000 habitantes. E fizemos isso tentando escutar os gritos do nosso povo nos bairros, colônias e favelas, nos grupos das Comunidades Eclesiais de Base.
A primeira coisa que fizemos foi estabelecer um quadro teológico comum como Igreja em caminho, servidora do Reino. Depois, aprofundamos biblicamente a espiritualidade da escuta. Com base no silêncio, na oração e na escuta dos textos bíblicos, fomos educando pouco a pouco o nosso ouvido.
Fizemos este exercício durante dois anos, escutando os gritos do nosso povo para ver quais eram os problemas estratégicos, tanto a nível social como eclesial. Com o ouvido atento à realidade e à Bíblia, descobrimos que o sistema capitalista neoliberal é a causa principal dos outros problemas. E aqui descobrimos dois problemas estratégicos no âmbito social: a violência estrutural e o empobrecimento. E no âmbito eclesial, descobrimos outros dois grandes problemas: o clericalismo e o modelo conservador de Igreja, e a sacramentalização sem evangelização.
Fizemos este exercício partindo de baixo, de cada bairro, colônia ou aldeia. Depois, fizemos isso na paróquia, logo na zona ou decanato e, finalmente, no nível diocesano. Em cada uma dessas instâncias, fizemos, no final, uma assembleia para reunir tuda a escuta das pessoas.
Já com os problemas estratégicos, buscamos quais eram as prioridades para trabalhá-las como Igreja. Sempre seguimos o mesmo método: isto é, a partir de baixo, a partir de cada pequeno grupo nos bairros e aldeias. Diante da violência estrutural, apontamos duas prioridades de trabalho: (1) fomentar a cultura da paz e da justiça; e (2) promover o cuidado da água e a defesa de nossas florestas e da terra. E diante do empobrecimento, colocamos promover uma economia solidária e justa para uma vida digna.
E no campo eclesial também buscamos as prioridades a serem trabalhadas. Diante do problema do clericalismo e do modelo de Igreja conservadora, assumimos promover, animar e fortalecer as Comunidades Eclesiais de Base. E diante da sacramentalização sem evangelização, escolhemos promover o espírito e os processos da Iniciação Cristã.
Este trabalho nos levou três anos: escuta desde as bases até o nível diocesano, e retorno do diocesano até o último bairro, colônia ou rancho. É um tecido nutrido pela oração, pelo silêncio, pela escuta da Palavra de Deus, pela iluminação, pelo discernimento e pela partilha e acordos pastorais que vão dando rosto à nossa Igreja particular para o seu Plano Diocesano de Pastoral. Para todo este trabalho pastoral, utilizamos o método da conversa no Espírito, recomendado pelo Documento final do Sínodo sobre a sinodalidade convocado pelo Papa Francisco, e vemos que tem dado muitos frutos.
Acreditamos, portanto, que é a partir de baixo, na escuta e no discernimento dos problemas, na conversa no Espírito, que nos permitiu avançar. Posso dizer que o mais importante foi o processo de escuta que nos educa e permite a participação de todos e todas. Acredito que percorremos um caminho sinodal durante três anos e isso está configurando o rosto da nossa Igreja.
