O teólogo leigo venezuelano Rafael Luciani, professor da Universidade Católica Andrés Bello, membro da Equipe de Pastoral Teológica do CELAM e especialista da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, apresenta seu artigo “O despertar da consciência de uma Ecclesia tota. Chaves para uma leitura eclesiológica do processo sinodal” na Revista Medellín (nº 190, janeiro-junho de 2025). Neste texto, Luciani argumenta que o atual processo sinodal constitui uma “receção ulterior do Concílio Vaticano II”, marcando um salto qualitativo na vida eclesial. Através de uma leitura teológica do caminho iniciado pelo Papa Francisco em 2013, o autor sustenta que a Igreja redescobre sua identidade como “Povo de Deus” e como ” Ecclesia tota”, ou seja, uma comunhão orgânica de Igrejas locais, regionais e universais. Sua contribuição oferece uma síntese lúcida e proposital do novo rosto eclesial que emerge do processo sinodal.
Uma Igreja que retorna às suas raízes locais
Luciani propõe retornar ao cerne da eclesiologia conciliar: a vida da Igreja nasce e se realiza nas Igrejas locais, onde os fiéis vivem concretamente o “caminhar juntos”. Para o autor, essa afirmação implica recuperar a riqueza dos rostos concretos do Povo de Deus, com suas diversas línguas, tradições e espiritualidades.
O teólogo enfatiza que esse retorno ao local não fragmenta, mas renova a catolicidade ao reconhecer a pluralidade como um dom. Ele alerta, porém, que ainda coexistem modelos eclesiais que privilegiam uma visão piramidal e uniforme, contrária ao espírito do Concílio. Nesse sentido, Luciani insiste que “a catolicidade da Igreja nunca coincidiu com um universalismo abstrato”, lembrando que a diversidade de culturas e tradições é fonte de beleza eclesial.
Ele também enfatiza a importância de uma linguagem renovada que reflita essa maturidade teológica. A preferência pelo termo “Igreja local “, explica Luciani, marca um passo decisivo em direção a uma compreensão mais participativa e contextual da vida eclesial. Não se trata de uma mudança terminológica menor, mas sim de uma nova maneira de narrar o Concílio a partir da perspectiva do povo, e não apenas do centro.
A ecclesia tota como comunhão de igrejas
No cerne do artigo, Luciani desenvolve a noção de Ecclesia tota, entendida como uma comunhão viva de Igrejas que se sustentam mutuamente. Inspirado pela Lumen Gentium 23, ele lembra que “a Igreja, corpo místico de Cristo, é também um corpo de Igrejas, no qual e a partir do qual existe uma e única Igreja Católica”. Essa afirmação molda uma eclesiologia que articula três níveis de comunhão: local, regional e universal.
No âmbito local, as dioceses são o espaço privilegiado onde a sinodalidade é vivida concretamente. No âmbito regional, estruturas como o CELAM ou a Assembleia Eclesial Latino-Americana Elas permitem a responsabilidade compartilhada entre as Igrejas em contextos comuns. Finalmente, no nível universal, o Bispo de Roma atua como um elo visível de unidade.
Luciani enfatiza que essa estrutura não visa enfraquecer a figura do Papa, mas sim reconfigurar seu serviço à comunhão. Em suas palavras, “o primado de Roma deve ser entendido não tanto como um poder universal em uma Igreja universal, mas como uma autoridade a serviço da comunhão entre as Igrejas”. Essa abordagem consolida a visão de uma Igreja descentralizada, onde a autoridade se exerce no diálogo e na reciprocidade.
A Assembleia sinodal como novo sujeito eclesial
Uma das contribuições mais relevantes do texto é a afirmação de que a Assembleia Sinodal se tornou um sujeito autêntico do processo eclesial. Luciani explica que essa reconfiguração implica “uma profunda releitura das identidades e relações entre todos os sujeitos eclesiais: todos, alguns e um”. Com isso, a sinodalidade é assumida como uma forma constitutiva da Igreja, e não apenas um método de consulta ou governo.
O autor observa que, pela primeira vez, o Documento Final do Sínodo “participa do magistério ordinário do Sucessor de Pedro”. Este acontecimento, sem precedentes na história recente, expressa uma nova forma de exercer o ministério petrino: uma liderança que escuta, discerne e decide com o Povo de Deus. Assim, a autoridade pastoral não pode mais ser separada da escuta comunitária.
Em essência, Luciani vê uma mudança de paradigma neste processo. Em contraste com os modelos verticais, a sinodalidade introduz dinâmica de discernimento e corresponsabilidade. Nas palavras do próprio autor, ” a sinodalidade é um caminho de renovação espiritual e reforma estrutural “. Nesse contexto, o processo sinodal 2021-2024 se apresenta como um verdadeiro despertar da consciência eclesial, onde a Igreja se reconhece como um todo vivo e plural.
Uma hermenêutica pós-conciliar em andamento
Em sua conclusão, Luciani argumenta que estamos testemunhando uma nova hermenêutica do Concílio Vaticano II, na qual a sinodalidade se torna sua expressão mais madura. Ele afirma que “estamos redescobrindo uma nova forma de Igreja, enraizada na Tradição, que prolonga a força profética do Concílio no mundo de hoje”. Sua reflexão ilumina o presente eclesial como palco de discernimento e aprendizagem coletiva, onde a unidade se constrói na diversidade e na participação.
Neste artigo, Rafael Luciani oferece uma síntese reflexiva do pensamento eclesiológico contemporâneo, propondo uma leitura esperançosa e realista do processo sinodal. Sua visão convida à conversão pastoral e institucional de uma Igreja que, ao se reconhecer como um todo —Ecclesia tota—, se abre ao diálogo, ao serviço e à comunhão.
O artigo completo pode ser lido aqui: https://observatoriosinodalidad.org/pt-br/project/o-despertar-da-consciencia-de-uma-ecclesia-tota/
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