Conferências episcopais: chave para uma Igreja sinodal e em saída

Conferências episcopais: chave para uma Igreja sinodal e em saída
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O teólogo argentino Carlos Schickendantz apresenta uma análise das conferências episcopais e seu lugar na estrutura eclesial contemporânea, no âmbito do atual processo sinodal promovido pelo Papa Francisco. O texto, intitulado “As Conferências Episcopais: Avaliação e Balanço de Experiências no Contexto Eclesial Atual”. Esta publicação oferece uma rica reflexão teológica e metodológica que busca renovar a compreensão e a prática da colegialidade episcopal na Igreja do século XXI.

Revalorizar a experiência: uma chave pós-conciliar

Schickendantz parte de uma proposta do Documento Final do Sínodo de outubro de 2024: “realizar uma avaliação da experiência do funcionamento efetivo das Conferências Episcopais” (DF n. 125). Esta recomendação, segundo o autor, não é nova em si mesma, mas sua inclusão em um texto magistral recente lhe confere nova relevância eclesiológica. Em sua análise, ele propõe uma metodologia que valoriza a experiência eclesial concreta como um verdadeiro “lugar teológico”, em diálogo com as ciências sociais, as práticas pastorais e a tradição viva da Igreja.

O autor argumenta que essa “avaliação da experiência” envolve prestar atenção à história, às formas de proceder em diversas conferências e às mediações culturais. Ele cita, por exemplo, que “a práxis, quando é verdadeiramente uma prática eclesial de fé, entra no tecido teológico, a ponto de exercer nele uma certa normatividade”; o que implica que a experiência não é apenas uma fonte de aprendizagem pastoral, mas também de iluminação teológica.

Essa abordagem reposiciona as conferências episcopais não como meras estruturas administrativas, mas como espaços de discernimento e encarnação da fé em contextos concretos. A história de sua origem —em comunhão com Roma, mas como resposta às necessidades pastorais nacionais— revela uma sabedoria eclesial desenvolvida “antes de ser teorizada”, antecipando as intuições do Vaticano II.

A vez de Francisco e as reformas necessárias

O texto também analisa criticamente o legado do motu proprio Apostolos Suos (1998), que limitou a autoridade doutrinária das conferências episcopais. Segundo Schickendantz, o pontificado de Francisco marcou um ponto de virada. O Papa, na Evangelii A Gaudium observou que “ainda não foi suficientemente explicado um estatuto para as Conferências Episcopais que as conceba como sujeitos de poderes concretos, incluindo alguma autoridade doutrinal autêntica” (EG 32). Esta declaração, incluída num documento programático, representa um questionamento aberto do modelo restritivo herdado do período pós-Conselho.

Um exemplo concreto dessa orientação reformista foi o motu proprio Magnum Principium (2017), que devolveu às conferências maior autoridade na tradução de textos litúrgicos. Francisco defendeu publicamente esta decisão mesmo diante da resistência interna. Segundo Schickendantz, esta medida representa uma significativa “reformulação das relações entre a Cúria Romana e as conferências episcopais”.

Assim, o autor interpreta Francisco como alguém que propõe um “retorno ao Concílio”, recuperando a liderança local e colegial em um contexto sinodal. A descentralização litúrgica torna-se, assim, um sinal concreto de uma Igreja que se constrói a partir de baixo, em diálogo com as culturas e realidades regionais.

Inculturação, sinodalidade e missão

Um dos temas mais inovadores do artigo é a conexão entre conferências episcopais e os processos de inculturação, interculturalidade e catolicismo. Longe de vê-las como estruturas técnicas ou burocráticas, Schickendantz as concebe como “mediações necessárias” para a missão da Igreja em diversos contextos culturais. Essa dimensão, diz ele, já era central nos debates conciliares, especialmente em Sacrosanctum Concilium e Ad Gentes.

Nessa perspectiva, as conferências episcopais têm um papel essencial no caminho sinodal: “Quando estão em jogo igrejas particulares e, dentro delas, processos de inculturação… a figura institucional das conferências emerge como necessária”. Portanto, a proposta de avaliá-los em seu funcionamento concreto não é um gesto meramente administrativo, mas um ato profundamente eclesial e teológico.

A publicação deste artigo se soma aos esforços do Observatório Latino-Americano de Sinodalidade para promover uma Igreja mais participativa, colegiada e comprometida com sua missão no mundo. Com clareza e rigor, Schickendantz oferece ferramentas para um debate necessário e oportuno sobre o futuro das estruturas eclesiais.

O artigo completo, “As Conferências Episcopais: Avaliação e Balanço de Experiências no Contexto Eclesial Atual”, pode ser baixado gratuitamente. 

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