A Comissão Teológica Internacional apresenta um documento sobre o legado contínuo do Concílio de Niceia

A Comissão Teológica Internacional apresenta um documento sobre o legado contínuo do Concílio de Niceia
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No âmbito do 1700º aniversário do Primeiro Concílio de Niceia, a Comissão Teológica Internacional (CTI) publicou um documento intitulado “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”. Este texto apresenta o significado histórico, doutrinário e eclesial do Concílio que definiu a fé cristã em Jesus Cristo como verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

A publicação faz parte de um processo de reflexão promovido pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, que visa comemorar os 1700 anos, mas também revitalizar sua influência na vida da Igreja contemporânea. O documento, aprovado pela Comissão em sua sessão plenária de 2024, está disponível no site do Vaticano em vários idiomas.

Este novo texto teológico analisa o contexto e os frutos do Concílio e oferece uma perspectiva renovada sobre sua recepção histórica e relevância contínua. Representa uma ferramenta valiosa para estudiosos, pastores e fiéis interessados na tradição viva da Igreja.

Uma obra coral de teologia ao serviço da comunhão eclesial

O documento é resultado do trabalho colaborativo dos membros do ITC durante o quinquênio 2019-2024, especialmente da subcomissão que abordou a recepção do Concílio de Niceia. O texto reflete a riqueza de perspectivas e a profundidade acadêmica de seus autores, que vêm de diversas partes do mundo e de diferentes tradições teológicas.

O presidente do CTI, Cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, aprovou a publicação após um minucioso processo de revisão. O projeto foi coordenado pelo padre francês Étienne Vetö, membro da Comunidade Chemin Neuf, que atuou como relator geral da subcomissão.

Essa dimensão colegial e sinodal do trabalho teológico se traduz em uma estrutura clara e pedagógica. O documento está organizado em uma introdução geral, quatro capítulos temáticos e uma conclusão que articula as reflexões anteriores a partir de uma perspectiva pastoral e ecumênica.

Capítulo I: O contexto e as motivações do Concílio de Niceia

O primeiro capítulo oferece uma análise histórico-teológica do contexto em que surgiu o Concílio de Niceia. Explica como as controvérsias cristológicas, especialmente as teses de Ário, levaram à necessidade de uma definição clara da divindade do Filho. O imperador Constantino convocou os bispos para restaurar a unidade da Igreja.

Destaca-se a afirmação do Concílio: o Filho é “consubstancial” (homoousios) com o Pai, o que implica uma ruptura definitiva com posições subordinacionistas. Esta decisão foi fundamental para o desenvolvimento subsequente do dogma trinitário e cristológico.

Além disso, o capítulo destaca a participação de figuras importantes como Atanásio de Alexandria e o papel emergente do Bispo de Roma na comunhão universal. Nicéia se torna, assim, um ponto de virada para a doutrina e estrutura eclesiástica.

Capítulo II: A recepção do Concílio na vida da Igreja

O segundo capítulo aborda a complexa recepção de Nicéia nos séculos subsequentes. Ressalta-se que a aceitação do concílio não foi imediata nem uniforme, mas foi marcada por conflitos, debates e reafirmações, como os que ocorreram nos Concílios de Constantinopla e Calcedônia.

Apesar dessas dificuldades, o texto mostra como a doutrina de Niceia foi progressivamente afirmada na liturgia, na catequese e nos símbolos da fé. A importância do Credo Niceno-Constantinopolitano como fórmula para a comunhão na fé é enfatizada.

Este capítulo também examina como diferentes tradições cristãs, tanto orientais quanto ocidentais, abraçaram e reinterpretaram os ensinamentos de Nicéia, abrindo um horizonte para o diálogo ecumênico contemporâneo.

Capítulo III: A relevância do Concílio de Niceia hoje

O terceiro capítulo se concentra na relevância da mensagem de Nicéia hoje. Afirma-se que o Credo não é um mero vestígio do passado, mas uma afirmação viva da fé da Igreja que continua a nutrir sua identidade e missão.

O documento enfatiza o desafio de proclamar a fé em Jesus Cristo em contextos culturais e religiosos cada vez mais diversos. Neste sentido, a mensagem de Nicéia nos convida a aprofundar a relação entre a identidade cristológica da Igreja e seu testemunho no mundo.

Além disso, argumenta-se que a fé nicena é também uma fonte de esperança para uma humanidade fragmentada, pois proclamar Cristo como verdadeiro Deus e verdadeiro homem significa afirmar a possibilidade de uma comunhão autêntica entre Deus e os seres humanos.

Capítulo IV: Nicéia como modelo de sinodalidade

O quarto capítulo oferece uma leitura do concílio como modelo de sinodalidade. Embora convocado por um imperador, o processo deliberativo e o consenso alcançado entre os bispos ilustram um exercício de comunhão eclesial que continua relevante para a Igreja hoje.

Somos convidados a redescobrir em Nicéia uma prática de escuta mútua, discernimento compartilhado e adesão à verdade revelada, em um contexto marcado por tensões e divisões. Essa experiência pode lançar luz sobre os atuais processos sinodais promovidos pelo Papa Francisco.

Nesse sentido, o texto propõe que a fidelidade a Nicéia não se limita à adesão doutrinária, mas implica também uma conversão sinodal, ou seja, um modo de viver e decidir juntos como Povo de Deus.

Uma inspiração para a missão da Igreja

A Comissão Teológica Internacional nos convida a ler a mensagem de Nicéia como inspiração para a missão da Igreja hoje. O documento enfatiza que o Credo deve ser transmitido em linguagem inteligível e com testemunho confiável.

Também é enfatizado que a comunhão na fé nicena é necessária para avançar em direção à unidade visível entre os cristãos. A verdade confessada em Nicéia tem uma dimensão pastoral, pois toca o coração da experiência cristã: a salvação por meio de Cristo.

O texto completo pode ser baixado no site oficial do Vaticano. Esta é uma leitura valiosa para aqueles que desejam entender melhor a fé que professamos e seu fundamento na história viva da Igreja.

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